quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Menino onça




para Luiz Nadal


Você reparou na variação das cores que refletem na parede nesse instante? Temos falado tanto sobre isso, sobre o que escorre desde um epicentro grandioso, sobre a possibilidade de haver nuances naquilo que se anunciava plano, sobre o que nunca se conforma, sobre o mistério maior que sustenta  a cada hora o mesmo sol. Nos sentamos lado a lado para observar não o céu das constelações misteriosas, mas o céu cinza ocre e suas variações sem consequências místicas ou pontos de referência para os que navegam. Eu te olho e você é um pássaro tão raro, eu te olho e você é a cidade com suas aglomerações, seus terrenos baldios, suas cenas de crime, eu te olho e você é o ápice de um solstício, eu te olho e você está no quarto ao lado, no México, de volta ao sul, na terça-feira de carnaval, ao meu lado na cama, diante de uma parede onde há agora um arco-íris tão improvável quanto definitivo. Estamos em silêncio de mãos dadas, penso naquela noite no Campeche, nas noites de gargalhadas incontidas e tropeços calculados, em dar volta no mesmo quarteirão vinte e uma vezes só para falar sobre o que jamais definiríamos. Dançamos ao ritmo dos desabamentos, dos meteoros que atingem o solo, das conversas sem centro nem sentido, dos passos daqueles que andam sem temer a travessia. Você é tão bonito que às vezes dói. Andamos e nos tocamos e dançamos como loucos e nos calamos nos perdemos entre esses tantos que também são bonitos que doem e que trazem e levam notícias do furo que habita o centro de tudo, essa ferida luminosa que nos traga e nos acende, pela qual te alcanço agora. Agora silêncio. Mas, escuta, você reparou a gradação sutil das cores? Reparou que isso, como tudo mais, agora é lembrança. Mas persiste isso que nos une que é o próprio inominável, mistério pesado no meio da noite insone, mar gelado e borbulhante onde me lanço, perplexidade às três da tarde de domingo, fôlego que encontro no ápice de um cansaço, silêncio que sabota a contagem implacável do tempo, palavra trêmula, pão, risco incalculável, festa, amor.       

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Autoconhecimento




Piso na cidade úmida em direção à emergência vinte e quatro horas
Piso na trilha de água quente que liga o calçadão de Copacabana a seu incerto mar
Há uma mulher que lê Hans Staden na praça de alimentação.
Há um homem que confunde todos os corações
Há a suspeita de uma doença rara que se abate sobre um corpo indeterminável
Há uma pilha de livros do lado direito de um braço que se estende
na direção do mais impuro amor
É possível que nesse instante dois contrários se anulem
E que o mistério de um desejo nunca enunciado se revele
num gesto percebido pelos mesmos olhos
que agora levo à emergência vinte e quatro horas
Você limpa os vestígios de um dia de praia
A areia condensada em forma de monte bem no meio da sala
Você passa os dedos sobre o livro do navegador que escapou por um triz
E menciona a possibilidade de coincidir uma experiência sobrenatural
com uma confusão lisérgica e
uma certeza lógica
Essa é a mesma possibilidade que me faz permanecer indo
em direção ao mar, à emergência, à praça de alimentação
Investigando maus súbitos
canibais, mares impróprios para banho
como se olhasse a mim  

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

A Pele de Vênus

A Pele de Vênus é um filme de Polanski baseado no romance de Sacher-Masoch intitulado A Vênus das Peles, clássico a partir do qual foi cunhado o termo masoquismo. É interessante lembrar que o masoquismo de Masoch diz respeito ao desejo de submissão de um homem a uma mulher, indo na contramão do imaginário da pornografia contemporânea na qual, via de regra, a mulher é submetida. 

No filme de Polanski,  Thomas é um diretor de teatro que está fazendo audições para uma adaptação do texto de Masoch e está tendo dificuldade em encontrar a atriz ideal. Vanda é uma atriz que chega atrasada para o teste e, num primeiro momento, desagrada o diretor em tudo. Seja como for, a atriz consegue convencê-lo a testá-la e, como não há mais atores presentes, ele próprio faz o papel de Severin, aquele que em A Vênus das Peles deseja se submeter à Wanda ( notadamente quase homônima à inquietante atriz).

O filme se desenrola de forma que o talento em atuação de Vanda vai se revelando surpreendente a cada momento. Vanda não apenas decorou todas as falas, como tem ideias perspicazes no que diz respeito à iluminação e cenografia, além de se mostrar bastante versada no teatro clássico, citando as Bacantes de Eurípedes com precisão. Aos poucos vamos assistindo Thomas se perturbar com o talento e a presença de Vanda, que de inapropriada passa a sedutora e intrigante. Um dos pontos interessantes do filme é como a leitura da peça vai se misturando com a relação que está sendo forjada entre a atriz e o diretor, mistura que chega a seu ápice no final do filme quando Thomas está totalmente rendido à Vanda realizando todos os estranhos pedidos que ela o faz. 

Entretanto, no meu ponto de vista, a questão do Polanski não é apenas as tangências e as sobreposições entre atuação e realidade e muito menos uma simples crítica ao machismo presente no texto de Masoch. A última cena do filme é reveladora, pois Vanda não se se satisfaz em ver o diretor rendido às suas ordens, ela decide amarrá-lo em um objeto cenográfico em formato de falo e se transforma em uma Bacante, tomada de energia dionisíaca, dança e enloquece diante do homem antes de deixá-lo preso ao imenso falo. Não me parecem também gratuitos os planos de entrada e saída do teatro, nos quais a fachada é bem exibida e exaltada. 

                                      



O teatro é a arena de Dionísio, Deus não apenas da embriaguez, da loucura e do hedonismo, mas também da multiplicidade e dos semblantes. Se consultarmos a obra de Eurípides citada por Vanda, leremos uma história na qual Dionísio quer matar o rei Penteu por este não acreditar em sua origem divina e por não permitir que seu culto fosse prestado. Para realizar sua vingança, o Deus precisa contar com as mulheres - as Bacantes - e também com a curiosidade de Penteu acerca das práticas dessas mênades. Enquanto as Bacantes estão  no monte Citéron realizando feitos especialmente incríveis, como colocar serpentes em seus cabelos para reverenciar o Deus, amamentar gazelas e lobos selvagens e fazer vinho, leite e água brotar do solo, Dionísio, travestido de pastor estrangeiro, aconselha  Penteu a vestir-se  como uma mulher e ir ao Citéron. O rei chega próximo às Bacantes e sobe em uma árvore para poder testemunhar os seus feitos e então Dionísio grita às suas devotas, apontando-lhes o homem no topo da árvore. Em êxtase, as Bacantes arrancam Penteu da árvore e rasgam seu corpo em pedaços.

Polanski sabe que a encenação tem relação com as forças dionisíacas e que tais forças nada tem a ver com as essências ou com a crença absoluta na consistência fálica. O papel da dominadora falicizada, que obedece a um contrato que firma posições fixas, não interessa à Vanda, uma mulher que prefere a violência das Bacantes: essa que não requer as insígnias fálicas e que dá a ver a própria precariedade do que se acredita absoluto e assegurado. Vanda acredita nos semblantes, no êxtase e na multiplicidade como uma potência mais perigosa do que as coladas ao reforço das posições mestre-serviçal. 





Assim, penso que Polanski não apenas faz uma crítica à inconsistência do pensamento machista como também à noção de que a solução ao machismo seria uma redistribuição pretensamente justa das insígnias fálicas ou uma ontologia do feminino que lhe desse consistência a partir dos significantes de "dominadora" ou "mestre". Polanski parece apostar nessa força não-toda fálica que sabota as crenças totalizantes e celebra o descontrole, a surpresa e a fúria desejante. Não se trata de transformar Vanda em uma "musa sádica" ou exaltá-la por via idealizada qualquer, trata-se justamente de positivar o feminino por sua resistente indefinição e sua afinidade com o jogo dos semblantes. Acredito cada vez mais na sabotagem do feminino ideal (seja qual for o ideal) como uma prática ética que assegura a dignidade da alteridade e acredito que A Pele de Vênus vai nessa direção apostando que a alternativa à violência contra o feminino é uma violência do feminino: essa que se ancora na diferença e tem como inimigo as forças idealizantes.
        



quarta-feira, 9 de setembro de 2015

31




Às dez horas da manhã um homem atravessa a rua. Sente uma dor profunda e gasta ao olhar para um prédio, mas desvia da entrada com firmeza. Enquanto isso um guerreiro  Sateré-Mawé já está há nove minutos com uma mão dentro da luva cheia de formigas tucandeiras: se permanecer um minuto mais, conseguirá passar no teste. Na hora mais quieta da madrugada, uma mulher encara  uma folha de papel em branco e encosta o grafite do lápis no canto esquerdo superior. Ela ainda não tem ideia do que vai escrever. O mesmo homem que mais cedo atravessou a rua agora fuma um cigarro olhando para a Nossa Senhora de Copacabana e se sente estranhamente forte. O guerreiro conseguiu permanecer dez minutos com a mão dentro da luva e agora arde em febre, mas sorri.  A mulher começou a escrever uma história estranha sobre uma menina que encantava serpentes e se deixava picar. O veneno, mortal para todos, nela operava como um remédio fortalecedor. O homem termina seu cigarro e decide que é hora de trocar a fechadura da entrada, liga para um chaveiro como quem telefona para um amor recém chegado. O guerreiro arde em febre, mas bebe caiçuma e olha vagarosamente o corpo da mulher que ama e com quem agora poderá se casar. A escritora descobre que vai ter um filho e abandona a história da encantadora de serpentes, mas não para de sonhar com ela. O guerreiro Mawé sai para caçar e faz uma pausa num igarapé. Há uma onça que o aguarda do outro lado, ainda não se sabe quem triunfará. O homem anda na rua e durante duas horas inteiras não pensa naquilo que mais  dói. O mundo segue reluzente e impiedoso, é possível não haja nenhum sentido que determine o que vai permanecer  e o que se arruinará. Mas pode ser que haja uma força, mágica e insurgente, que nunca pare de aproximar o que finda daquilo que ainda agora acaba de nascer. 

terça-feira, 8 de setembro de 2015

30


Proponho-me a escrever e tornar público um texto por dia durante trinta e um dias. A vida passa a transladar em torno dessa insensata operação. Escrever é fazer ecoar nas regiões côncavas de mim toda voz que não a minha. Estar tão atenta à oquidão dói feito uma dor de ouvido, transformação de um anatômico vazio em impiedosa atenção. E escrever nunca teve a ver com remediar a dor, tem a ver com sentir o peito arder em brasa e não dizer uma palavra sobre isso. Tem a ver com sentir o peito arder em brasa e dar espaço para a voz da arma que fere. Quando escrevo só tenho uma hipótese: a de que o coração de tudo que há é um vazio prenhe de transformação. É preciso me deixar arrebatar pelo que é feroz e ainda assim saber que estou fingindo. É preciso tornar radicalmente indistintos o inventar e o estancar. Entrelaço escritura e vida e, agora ao fim, percebo que não se trata nem de abandonar o vivido em prol da escrita e nem de transformar o texto em reflexo de experiência qualquer. A escrita opera na vida e, portanto, expande a si própria enquanto alarga o vivível. Escrever é engolir espadas. Se a escrita chega a roçar o fundo do corpo não é porque de lá advém, é antes porque se pode transformar um corpo estranho naquilo que há de mais próprio. Roço o que é mortal e me salvo à custa de saber abrir espaço para a inconsistência. Escrever, é preciso fazê-lo com o respiro entre os ossos, com o oco da garganta, com o instante entre uma batida de coração e a outra. Escrevo porque nada coincide inteiramente consigo próprio e pode-se reinventar o mundo  bordejando essa fenda com o nome pulsante do desejo, ou de seu rutilante par, a diferença.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

29



Madrugada na cidade grande. Eu atravesso a rua e você pede licença para chegar até o corredor do avião. Eu atravesso uma via na contramão enquanto você contempla a cidade a 3000 pés. Noite alta na cidade quente, e o calor vence silenciosamente as ventanias esporádicas e então se restabelece como atmosfera. Eu estou no meio de uma multidão que tenta se esquecer cada qual de uma promessa, você dorme em altitude de cruzeiro. Eu me esquivo de uma armadilha enquanto você passa a cem por hora pelo aterro. Desconheço a identidade de quem te espera no sofá, você também não faz ideia dos destinos que prescrevo ao taxista. No une, nesse instante, a indiferença à chuva enquanto todos correm pulando poças, errando a mira, tapando o alto da cabeça com algum volume. Eu jogo baralho num quarto de hotel, você encara o Edifício Noite através da janela em uma edícula.  Me equilibro em um pé só dentro de um banheiro tentando tirar a meia-calça, talvez passe pela sua cabeça a ideia das minhas pernas nuas atravessando o temporal na noite quente, você agora talvez tente voltar para casa ou busque por alguma coisa crucial. Os contornos esmaecem nessa hora em que noite e dia se confundem e o alaranjado solar mancha o azul profundo, o momento da virada é  inexato mas inconfundível. Quando o dia irrompe, estamos distantes, com apetites diversos, mas com a mesma sensação de havermos desperdiçado algo precioso. Eu encontro alegria na experiência do dispêndio. Quanto a isso , sobre você, eu já não sei. 

domingo, 6 de setembro de 2015

28



Matéria frágil rente às ventanias, às chuvas abrasadoras, à margem dos sumidouros. Ao sul preparam os abrigos e algumas barricadas. Aqui, no centro, testemunho uma separação, dois corpos que se sustentavam mutuamente já não se entendem mais. Um homem encanta uma serpente com sua flauta, os corpos se acusam e se traem, eu hipnotizo minhas próprias pernas emitindo um mantra que mistura o som do seu nome, algo que remeta ao enigmático futuro e a notícia da incompatibilidade que há entre o medo e o amor. A matéria frágil somos todos nós andando de um lado para outro atrás de algum rompante, algum alívio, alguma inevitável inspiração. A ameaça são as quedas, os embates, o que emerge e o que se infiltra, os entendimentos sempre sucedidos por dura incompreensão. Ao norte os feitiços já foram conjurados, filtros de amor e bonecos de vudu, agulha certeira bem no lado esquerdo do meu peito, explosão no céu agora. E então essa vontade de sair correndo em disparada derrubando obstáculos e reerguendo os vencidos. Vontade de consultar oráculos para confirmar que esse espaço em branco no centro  da minha linha da vida não significa nada além de um profundo amor pela indefinição. Talvez você já esteja muito longe, talvez pense que nada vai se alterar. Mas existe aquele instante imprevisível quando tudo muda sem remédio, aquele instante sagrado ao qual me lanço na hora precisa e derradeira que tem o nome de agora.    

sábado, 5 de setembro de 2015

27




De vez em quando você desaparece bem na minha frente. Ainda bem que ainda hoje limpei o vidro das janelas e a essa hora encaro farol lá longe que ilumina a silhueta praia e depois a superfície rugosa do mar. Sinto sua falta, caminho. Vou até o mar molhar os pés a despeito do inverno rigoroso. Se você estivesse aqui, colocaria seu braço sobre os meus ombros ou andaria um passo atrás de mim encontrando e perdendo constelações no céu.  Mas eu sou da rua, você sabe, a rua é meu farol. Toco seu cabelo em outra cabeça, beijo seus ombros em uma cama onde nunca dormi. Mas ainda estou a poucos passos de casa, me guio por algum conjunto de estrelas que você inventou e nomeou e também pela luz intermitente que passa lambendo o meu o rosto agora. Nessa hora certa, Vênus sai de sua órbita retrógrada e volta ao seu trajeto habitual como se nada houvesse. Outra estrela ou planeta sai rodopiando de uma forma inconsequente por esse mesmo céu. Esqueci os sapatos, os deixei rentes ao seu canto preferido da sala. Alegria imensa, a sala cheia de flores, um som estridente e antigo na vitrola, você lendo um livro que te explicava a vida das plantas e dos minerais. Ou um livro de crime, seu cenho franzido, a coluna descolada da espalda.  Chego ao cais e a noite treme. Uma mulher vestida de tigre briga com um faquir. Há quem solte uma gargalhada sem fim. Consciência extrema de estar só bem no centro de um abraço. Sensação de estar rigorosamente desperta bem no centro da noite. Não me abandonam meus guias, estável banalidade e inexplicável magia. 



sexta-feira, 4 de setembro de 2015

26




Por enquanto têm o passado para supor as dimensões e o formato do que os atingirá. Há um corpo que se debate enquanto sonha, outro que vem correndo de longe e para no instante errado querendo tomar fôlego. Há corpos que se banham, outros saem para caçar ou porque sentem o chamado, os que são dados como desaparecidos, os que se aninham junto ao fogo. Ninguém conversa sobre o ataque, mas  há  quem não pare de lapidar as pedras até estejam com formato e  fio de lança. Conforme se aproxima a investida, as festas se tornam mais rigorosas. Os que se amam experimentam delícias incalculáveis. Os que gostam de beber e comer se fartam e se embriagam como nunca. Há os que fazem viagens para dimensões sequer nomináveis. As crianças brincam de erguer e destruir reinos feitos de pedras. Caçam peixes no raso, colecionam cascos de moluscos e caracóis. O melhor caçador chora sem cessar. Os idosos experimentam beberagens e dançam até amanhecer. Os que leem a sorte se mantêm tranquilos, continuam trabalhando na roça, concertando telhados, capinando o mato. No momento do assalto, há os que se lançarão inadvertidamente sobre o perigo, os que recuarão até o ponto de onde jamais conseguirão retornar e os que se manterão de pé até o último segundo, sem convicção na vitória e nem na derrota, encarando o perigo sem certezas, ou seja, lutando.   

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

25



Os dias de colheita superam em muito os dias de plantio, as incursões verticais são regulares, mas percebo que conquisto, pouco a pouco, a extensão dos solos. Encaro os quatro pontos cardeais do elevador, faço a volta completa, avanço extensamente enquanto simulo resignação. Você se empenha em tirar proveito dos colapsos, está sempre atento ao que acumula e precisa escoar. Diz que a vida se sustenta na economia dos excessos, que queria aproveitar a promoção. Conquistamos muitos metros a pé, eu sempre atenta à silenciosa ginástica com a qual alargo meus passos, à distensão dos deslocamentos à altura do chão. Dois salgados e um refresco, suas pernas coladas às minhas por baixo da mesa. Ouvimos eclodir a revolução na Cinelândia, suas mãos investigam meus joelhos enquanto eu catalogo pedras, não conforme a tipologia dos minérios e as eras geológicas, mas em relação ao quanto se deslocaram ou se mantiveram paradas. Você questiona a procedência da comida, tudo parece muito perigoso, avançamos. É verdade que ainda não nos conhecemos, mas nos une a urgência de uma cumplicidade. Mantemos as armas abaixadas, mas sempre à mão. Você propõe a invasão da Biblioteca Nacional, diz que devemos queimar todas as páginas que propõem a ideia de origem, que toda crença no começos é culpada. Eu acredito na força dos espaços, desejo o alargamento das praças e das planícies, a demolição das fachadas, a destruição dos anteparos. Mas suas mãos conspiratórias, prontas para destruírem documentos e macularem obras raras,  estão agora joelho acima e falamos da memória dos dias amplos, a liberdade de avançar sem rota, os resgates. Não nos conhecemos, mas, enquanto nos tateamos cegamente, os efeitos rompem seus pactos com as causas, os muros caem, se faz evidente a arbitrariedade das catalogações. A revolução irrompe sem heróis,  não nos conhecemos e nos investigamos sem crença. Toda a fé no que acontece sem anuncio nem premissa. 

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

24


construo um parapeito  
arrasto móveis centenários
crio uma disposição  que o feng shui diria trágica
sal atrás das portas
arruda, pimenta, comigo ninguém pode 
entro no vagão por um triz 
escapo de acidentes, beiro os desastres
sou toda bondade, cedo alegremente meu lugar 
mas ninguém sabe o que planejo
do demorado trabalho que resultará
num estado de lucidez
alheio à diplomacia, ao bom senso
ninguém sabe quantos já fiz cair na armadilha
e menos ainda que todos estão sempre loucos para cair 
nisso consiste o feitiço
cuidar para que haja a grande possibilidade da perda
nada resiste a se abandonar
hoje é dia útil, sorrio para estranhos
ignoro grosserias 
dou mais um  passo na direção do que evoco
tão imaginária quanto fatal, é natural a comunhão
com a terra que estremece, o céu que oscila
as nuvens que se abrem
regidos pelo descontrole que nos une agora
conforme a mesma contingência 
que  traçou meu destino e de novo o desmente    

terça-feira, 1 de setembro de 2015

23




Coração, me dá um tempo. Não bastasse esse cachorro que não para de latir, devem ter ido viajar e esqueceram o bicho na área de serviço. Pera aí que eu volto já. Só vou ali na Atlântica tomar um ar. Fiquei de pagar o homem da feira, aproveito e trago um frango assado pro almoço. Mas vem você aí com essa desconfiança, essa atenção ao inexistente. Não me chateia não que  meu dente tá doendo e eu to morta de medo. E se for canal? Acho que vou na igreja, sessão do descarrego, pra ver se me curo de uma vez. Tá rindo do que? Acha que eu não tenho a minha camaradagem com Deus? Vai vendo, meu querido, Deus me dá a maior força. Depois eu vejo o que a gente faz com esse rombo no sofá, esse desencontro, esse apego desesperado à matéria rala que nos mantém. E qual que é o problema? Eu só gosto é de dar essa voltas assim sozinha, colocar os pensamentos em ordem, alimentar os bichos, deixar os pombos da pracinha bem gorduchos. Depois eu aproveito dou um alô pras meninas lá no clube. Não tem nada de má influência não, meu filho, tudo que eu faço de errado é porque  vem um demônio me tentar, ou então é porque eu quis mesmo. As meninas do clube são ótimas, você vai ver. A gente gosta é de comer fritura, passar óleo bronzeador e tirar cochilo em cima da boia. Caramba, agora que eu lembrei do sonho que eu tive hoje, escuta só.  A gente morava num casarão, vinha aquela sua ex-namorada e fazia uma faxina daquelas. Eu achava estranho, mas nem reclamava não. Aí você saía pra pescar, vara na mão, cesta e um chapeuzinho. Era um dia lindo, eu botava um vestido levinho e ficava dançando pela casa com cheiro de pinho sol. Aí de repente eu tinha essa ideia que era quebrar todas as  louças na cabeceira da cama, colocar seus livros da banheira e encher de espuma. Eu pegava todos os seus livros de literatura russa e toma de sabão. No sonho isso era a maior piada, eu tinha certeza que você ia morrer de rir quando voltasse. No fim, eu escancarava as janelas e soltava o teu canário belga que saía voando todo alegrinho. Agora eu vou ali, não demoro nada, mas também não precisa me esperar.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

22




temos fome
os saciados que se cuidem
nos infiltraremos
faremos o edifício chacoalhar
não temos medo das feras
não as amansamos
elas nos acompanham quando querem
nos dias de festa e nos de caçar
nos armamos
de vontade, tontura, revolta, comunhão
praticamos o cultivo dos restos
conhecemos a alquimia das transmutações
das misturas, dos despejos
se aproxima o tempo em que
colocaremos abaixo
um a um
os monumentos aos vencedores
quebraremos o asfalto
e faremos nascer o que comer

domingo, 30 de agosto de 2015

21


Como desviar do que é crucial? Agora mesmo enquanto fujo da sua cama de solteiro, da sua seriedade matutina repleta de rigores e algumas gentilezas, existem pessoas que estão acordando, outras já cometeram atos precisos, algumas estão com as pernas flexionadas dando o impulso para mergulhar. Há ainda as que temem terem colocado tudo a perder. Passeio pela Avenida Central confiando na previsão do tempo, alheia às violências que cometo e aos milagres que opero. Espero já tem tempo pelo 454. Por enquanto todos os prédios se equilibram sobre suas fundações, os parafusos dos automóveis parecem bem apertados, nenhum cão se soltou de sua coleira, nenhum movimento tectônico abala o contínuo do asfalto. Por enquanto nenhum verão, nenhum pranto imponderado, nenhuma memória que chegue rasgando o corpo quieto do presente. Mas não me engano, sei que nesse momento os planetas orbitam atraídos por uma força descomunal, fagulhas revolucionárias provocam atritos entre os desiguais, o amor mais incondicional do mundo fraqueja e se transforma. Não me engano, um rei é decapitado no sul da ásia, uma mulher escapa de seu algoz na instante do ataque e outra sequer percebe o que lhe aconteceu, uma criança empreende seus primeiros passos seguidos de um já conhecido tombo. Ou talvez eu me engane. Fico apreensiva ao som de uma sirene que passa costurando os veículos estáticos no engarrafamento às dez da manhã na Avenida Central. Fico alegre  lembrando de um carinho tão espantoso quanto esvaziado de sentido. Os corpos ocupam as ruas com suas leis arbitrárias, as táticas de deslocamento se revelam insuficientes. Consulto mais uma vez o horário, falta muito pouco agora.  Preencho, cuidadosamente, cada um dos meus espantos de delicado sentido enquanto espero o 454. Dias depois, rente a um muro alto, dia, em plano sequência: caminho lentamente, passo por um homem que lembra um amor antigo, passo pela banca de jornais, passo por um pequeno alagamento, passo por uma mulher que lê um livro sem a capa e então me ocorre que só chega diante do crucial à custa de um laborioso e imponderável desvio. 

sábado, 29 de agosto de 2015

20




Na primeira volta os pés ainda tocam o chão. Mistura de impulso e frenagem, corremos contra a ventania a despeito do céu nebuloso e das prováveis vozes que nos chamam lá de casa. Experimentamos as mais diversas velocidades. Algumas que não nos levam a parte alguma, outras que nos impulsionam num giro ao redor de nossos próprios eixos e, finalmente, as que nos suspendem totalmente. A minha blusa de lã grossa se encharca de suor. Você já está sem a blusa e os sapatos. A cada mão que escapa ou pouso que resulta num deslize nos ocorre que talvez seja hora de parar. Mas basta um rodopio, uma risada de entendimento ou de total incompreensão para que comecemos tudo mais uma vez. Muitas vezes colidimos nossos corpos com força. Com frequência você vai parar lá longe e eu me condiciono a cair rente às argolas de metal. Concentro-me em ressurgir impassível enquanto você se levanta prontamente dando uma gargalhada. Escapamos da densidade da tarde morna forjando trajetos aéreos, lidando com as quedas como quem lida com súbitos despertares no meio da noite quieta. Nuvens carregadas se adensam sobre nós, nada nos protege mais que a fúria e alegria de nossos corpos. Quando os primeiros pingos de chuva grossa atingem o meu rosto tenho os olhos fechados e a boca aberta. Quem me visse de longe não saberia se tenho sede ou se sorrio.   

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

19 




a medida do que ainda vamos atravessar
excede em muito a que já percorremos 
o silêncio que nos agrupa é rigoroso 
mas já é palpável a dissolução 
não temos nenhuma ideia 
de que horas são
se tarde ou muito cedo
só há luminescência 
constante inabalável
eu acho que é noite alta, você aposta em dia claro 
passeio pelas regiões selvagens da Terra
toco seu rosto assustado
estou munida de salva-vidas, lençóis
roupas fáceis de despir
caço tesouros em tudo que é raso  
na atividade dos vulcões
você desvia do que é incontido, amorfo
prefere erguer paredes 
polir espelhos, parelhar as fundações 
pausa para descansar
sabemos que não estamos sós 
nossa salvação dependerá
daquilo que nos espreita, você aposta em truques
mimetismo, camuflagem
investe no ponto cego
na distância redentora
simulação de ferocidade, de defesa
eu encaro a fera nos olhos 
desapareço 
começo a divisar uma outra rota

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

18


Um assombro sem maiores consequências. Depois um silêncio arrastado, algumas abstenções, a leitura da ata. Manuseio o arquivo com cuidado excessivo. Demoro-me na descrição das rotinas, na listagem dos nomes indigentes, nas contagens não-exatas do tempo e das oscilações. Mais tarde daremos uma volta inteira na cidade, passaremos pelas divisas ao norte e ao sul. Ainda tenho os cabelos endurecidos pelo sal, os cochilos sobre a pedra, a caminhada do oceano até a sua casa. Cuidadosamente forjo a minha partida. Levo comigo as impressões que deram errado, os moldes rejeitados, o que foi parar no fundo das gavetas. Respondo bom dia, sirvo-me de café, sento de frente para a parede ignorando o mar lá fora como parte da estratégia. Agora corremos na direção oposta aos portões. Antes de ir embora não esqueci de cortar os fios dos telefones. Inspiro longamente nesse instante no qual coincidem a ruína e inauguração. Na verdade nunca houve crime algum. Você corre ao meu lado  alheio aos meus pequenos delitos, aos meus planos de ataque seguidos dos rompantes de alegria. A opacidade dos dias passados se assemelha, em quantidade e em consistência, ao imprevisível dos que ainda virão. Ainda sinto palpitar o local onde mantive o explosivo durante a maior parte do dia. Viramos a esquina agora, você propõe um desvio inesperado. Ouço ao longe um barulho de explosão.  

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

17



Um carro passa em alta velocidade. Talvez eu esteja dentro dele e pense em te encontrar. Talvez seja o homem da hipoteca rondando a sua casa desde cedo da manhã. Pode ser também o entregador de comida oriental que pena em compreender a caligrafia de quem anotou seu endereço. Mas agora eu estou na rua paralela à sua, entro num táxi e peço para ir a Botafogo através do túnel velho. Passeio pela orla com maus pressentimentos. Faço algumas anotações, custo a abandonar os assuntos aos quais sempre retorno: talismãs, ruídos, caminhadas, presságios, epístolas, a sorte. Talvez eu pudesse fazer um poema sobre uma mulher que passeia com um enorme cão e sua saia que ondula conforme a direção do vento na enseada. Poderia prescrever um caminho em termos geométricos, indicar que se ande nove metros em linha reta rumo ao sul, que se vire o corpo para oeste e se caminhe numa diagonal cuja extremidade de chegada seja um ponto mais ao norte. E então cumprir a rota e fazer anotações a respeito do caminho, do que surpreende, do que é indiferente, do que é impossível. Ou poderia também escrever um texto sobre um homem que odiava usar sapatos, dormia de barriga pra baixo e tentava a todo custo sintetizar disparidades. Esse homem por ser ou não aquele que deu contornos tão provisórios quanto precisos a uma inominável sensação de urgência que retive e retenho ainda agora. Possivelmente vou escrever sobre queimar os pés na areia imprópria para ocupar as horas. Sobre se espantar com um veículo que passa a mais de cem por hora por uma pequena rua. Sobre meu cada vez mais suspeito e impreciso paradeiro. 

terça-feira, 25 de agosto de 2015

16



Remorso na sala de embarque. Procuro explicação nas entrelinhas, nas alterações do tom de voz. Revisito as últimas horas com rigor. Folheio o manual com ceticismo. Liberdade alardeada em todas as trocas, mas por enquanto nenhum fascínio. Turbulência em terra firme. 
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Experimentos com telepatia. Endosso a greve geral.    
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Radiografias, lentes, estudo minucioso do céu. Sinto vontade de chorar, mas seguro a barra. Adianto os relógios em segredo, tento melhorar a minha escrita com obscuros rituais: dou vinagre aos pássaros, faço jejum, durmo com a cabeça virada para a África meridional, alimento cães enfermos.  Preparo-me para o eclipse parcial. 
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Invisto na comunicação não-verbal. Meus sonhos estão permeados de imagens que são, a um só tempo, acesso e separação - pontes, corredores, escadarias. Também sonho com maquinarias engenhosas feitas de matéria frágil. Há uma presença que não determino e que me perturba. Ontem sonhei que embarcava por uma imensa plataforma em um avião feito de gelo. Passo a limpo o cronograma. 
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Hoje eu estou forte. Somem facilmente do meu pensamento as ideias de separação e guerra, invisto em longas caminhadas e delicadas manufaturas. Abdico das tipologias e das classificações. Desisto de determinar quem deu o primeiro passo. Não quantifico o interesse. Substituo a observação pela tentativa.  

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

15


Era a nossa única chance. Havia o desejo de intensificar o acaso. Não paramos para pedir nenhuma informação, seguimos pela via rápida, cruzando povoados, plantações, trilhos de trem. Eram imensos aqueles dias de verão. Talvez sua documentação não estivesse em dia, talvez não houvesse dinheiro nem para hoje. Provavelmente alguém nos perseguia no carro logo atrás. Seguíamos tentando escapar de tudo que parecesse justificado ou familiar. Eu pensava nos ladrilhos da casa dos meus pais, nos banhos na ducha do lado de fora e na ladeira que eu descia correndo, tentando perder o controle enquanto me esforçava para não cair. Estendemos as toalhas no chão pedregoso. Pensava nos seus olhos castanhos, seu cabelo escuro roçando a sua testa, suas mãos seguras entre as minhas coxas. O perigos e as dádivas se sucediam sem contrastes. Bem no centro do lago eu encarava a aparente imutabilidade do céu. Você gritou alguma coisa que não pude entender porque estava com os ouvidos submersos. Suspeitei que estivesse falando sobre a impossibilidade de voltarmos caso fossemos além daquele ponto, ou sobre a profundidade desconhecida do lago, ou ainda sobre a variedade de peixes  que ali havia, ou ainda mais certo que fizesse alguma analogia entre o acaso e a apneia. Era também possível que dissesse que já ali pressentia a aproximação de algo decisivo, um estranho efeito de nossas contingentes incursões, algo ainda imperceptível mas já existente como a efetivação de um destino.    

domingo, 23 de agosto de 2015




14

Você mete medo, tem uns olhos de avião levantando voo em meio à tempestade. Aquela corrida desmesurada seguida do milagre absoluto. Tem uns olhos que sustêm a ordem dos dias mais imprevisíveis: olhos de manter o sol queimando o topo das cabeças, de fazer o vento se enfiar nas frestas entre os edifícios, de conservar a mais descabida montanha de pé. Tem uns olhos de incêndio num campo a quilômetros daqui onde ninguém vai ver, mas cujo calor nos atinge sem remédio. Você tem cravado no meio do peito tudo que é amplo e inabitado, os vãos entre os pilotis, o oco dos cofres, o irredutível espaço entre dois corpos que se tocam. Todo mundo sabe que você debocha das leis da física e dos princípios sobrenaturais. Que embaralha tabelas e gabaritos, que se lava em poça d’água e que dorme até às três da tarde indiferente à plenitude da luz. Tem os dedos longos de arrombar fechaduras e roçar o inexiste. Uns braços de atravessar mares e canais, de abraçar tudo que é vago e indigente, de transformar o que se ergue indivisível em poeira e estilhaço. Quando você vem chegando os bichos que andam com a barriga no chão sentem a terra estremecer. As aves dão indício de uma nova corrente de ar. Sua selvageria tem a lógica e o efeito de uma engrenagem, você colapsa todos os sistemas de medida, desmorona tudo que se sustenta sob o signo da coincidência. De você o que advém é milagroso e imperfeito como a vida. Sua presença, em tudo justa no mundo, dá a ver que a justiça sobrevive no rigor da diferença. Você mete muito medo, você é a prova de que só há verdade enquanto houver dessemelhança.  

sábado, 22 de agosto de 2015


13


Se aproxima em ritmo regular. Os passos poderiam passar por espontâneos não fosse uma levíssima flexão de joelhos a cada passada. Os braços estão relaxados.  Com o indicador desenha pequenos círculos no espaço, altera e mantém o raio da circunferência conforme algum critério indeterminável. Não demora muito em dar as costas e sair sem anúncios. Quando retorna, tece algumas considerações que não chegam a impressionar.  Seus trajes claros contornam com nitidez seu corpo de ampulheta, reconstituo mentalmente as últimas horas. Alguma definição se anuncia, mas não há indícios de pureza. Não apresentou resistência ao convite para investigarmos a origem da infiltração, mas se mostrou muito mais interessada no desnível dos planos, na variação das unidades. Com os olhos fixados num ponto distante, usa a ponta dos dedos para localizar algum fenômeno digno de atenção. Temos alguns instrumentos à disposição, mas prefere o método do atrito.  Seus diagnósticos são imprecisos e temerosos, mas adquirem súbita assertividade quando nos deparamos com um ninho de insetos. Entra no pequeno quarto e retorna empunhando um emaranhado de fios, folhas de jornal, fósforos e querosene. Relata alguma experiência definidora enquanto monta o instrumento de ataque. Flagro um gesto de avidez. Prefere os combates às investigações, as ameaças delineadas aos inimigos sigilosos. A euforia atinge seu ápice. A tarde perde e ganha consistência em um ritmo cujo impulso localizo tanto no centro do seu corpo variável como no ponto médio da menor distância entre nós. 

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

12 



De volta aos escombros. Reviro o amontoado de cimento e ferro, mas não o encontro. Habitamos longamente sobre o aterro. Sempre indiferentes ao mar silenciado sob nossos pés. Até o dia em que pensei tê-lo escutado, primeiro como uma mínima perturbação, um zumbido inquietante que me lançava para fora de leituras e de abstrações mais prolongadas. Depois como aquele barulho produzido pela oquidão das conchas e, então, insistente e forte, como o som de água colidindo contra pedra. Lentamente os lençóis cotidianos começaram a se transmutar em pequenos arrecifes. Os utensílios domésticos se revestiam de ferrugem e substância perolada, era certo que o mar forjava o seu retorno. Nos assombrava com as silhuetas de suas ondas, vultos das marés, fossas abissais, bancos de areia. O chão alteava,  a casa parecia não resistir, compactuava apaixonadamente com seu mergulho. Fugimos.  Só muito tempo depois soubemos que não foi o mar que a derrubou e sim a súbita falência de suas estruturas. Foi abaixo em um só golpe. Mesmo agora não consigo perceber seus sons ou seus vestígios, nenhum rumor subterrâneo. Surpreendo-me, porém, ao encontrar minha antiga cama quase inteiramente preservada. Estendo meu corpo lá onde experimentei meus primeiros sonos de exaustão, perseverantes insônias, sonhos miraculosos. Noto que os lençóis já não recendem mais a sal. Nenhuma explicação, nenhum antigo tesouro, apenas a origem de tudo que se ergue e desmorona: vertiginoso mar desde sempre ressequido.

(Foto da Daniela Paoliello)

quinta-feira, 20 de agosto de 2015


11

a fechadura não funciona, eu te vejo de passagem
finalmente vai chover
você passou feito um furacão
almoço sozinha às três da tarde
de frente para a parte desconhecida da avenida
talvez não seja a chuva, mas um navio que se aproxima
abro o jornal sobre as coxas enquanto pesco as batatas com um garfo  
mulher, meia idade, desaparecida desde ontem
região metropolitana, aproximadamente 1,65
cabelos acobreados, vestia blusa estampada e calça jeans
liquidificador semi-novo, jarro de vidro com capacidade para um litro
bagatela, buscar no local
talvez você esteja na esquina 
talvez eu não acorde do teu lado
revisão tradução redação
da sua monografia, bacharel em letras pela universidade federal
doação de ninhada, transformo seus vídeos vhs em dvd
a porta entreaberta, você tomava um banho demorado
revestia todas as superfícies translúcidas de vapor
cobria o chão de perigosa umidade
teu cabelo molhado grudado em tuas têmporas
eu te disse: você não sabe da maior
eu te convidei para conhecermos aquela região estranha
da grande avenida que corta a cidade de norte a sul
você passou feito um furacão
adote um amigo, guarde suas memórias, loira deliciosa insaciável
morena carinhosa discreta, local refrigerado
tenha o amor  da sua vida a seus pés
pago a conta sem maiores esperanças
nenhum rumor adicional
grande planeta se aproxima da terra
o fim está próximo
pare de sofrer

quarta-feira, 19 de agosto de 2015



10


O chão da sala se eviscerando lentamente. Por baixo do revestimento de taco, nenhuma grande revelação: poeira, moedas, grãos. No varal, algumas roupas mais secas que outras a depender da densidade do fio. Questão de permeabilidade, assim como tudo mais. Sobre a mesa, fortificações intercambiáveis, fossos, cercas vivas.  Livros aos quais – nem imaginava - nunca mais retornaria e os que, supunha, continham impensáveis e definitivas revelações. A tapeçaria danificada permanentemente, manchas de café sobre uma selva densa. Um sol pálido agora embolorado. Vinho tinto sobre o casco de um cavalo em posição de ataque. Somente à custa de muita invenção era possível conceber um cavalo tão furioso, os homens sempre depositam suas guerras sobre os corpos mais indiferentes. Um empilhamento de armaduras, uma espada lançada longe. Encarava a tapeçaria com um mal-estar. Em nada combinava com as cadeiras de madeira clara, a luminária de metal. Imaginou outra paisagem, geleira, estepe, deserto de sal. O que era mesmo uma estepe? Foi ao dicionário e descobriu que pode ser a região transitória entre um deserto e uma savana, sorriu. Tangência entre ferocidade e devastação, a ameaça de tudo rente à ameaça do nada: a convergência, aliás. Na cristaleira – sim, havia uma cristaleira – o vidro tremulava conforme a passagem de um veículo pesado no lado de fora. Imaginou as fundações da casa,  fincadas terra adentro, balançando sem que fosse possível notar. Será que se, de súbito, tudo estancasse, seria possível permanece de pé? Pensou no deserto, na duna ou na praia onde teria se originado a matéria de suas taças vulgares. Juntou mentalmente uma tempestade de areia – como imaginava ser uma – e a imagem das taças tilintando ordenadamente. Supôs que se buscasse fixidez no dicionário haveria de encontrá-la como sinônimo para morte. Dessa vez foi ao digital. Abaixo da caixa de pesquisa, dois blocos de palavras: buscas mais frequentes e últimas buscas.  As frequentes:  importante problema apresentar necessidade realizar portanto objetivo fazer processo além pois utilizar necessário desenvolver mostrar considerar identificar poder conhecimento importância. As recentes: mal-estar misto grassar paulatinamente paulatino terreno empurrar culpado recebido exíguo acalmar encantado selvagem agenda soberano vestir sacrifício sabedoria humanitário avaria. Esqueceu o que tinha ido pesquisar e planejou coletar as roupas já secas do varal, mas acabou se distraindo com algo novo que descobriu debaixo de um taco erguido num tropeço. De imemorial só a renovação do mistério no instante.

terça-feira, 18 de agosto de 2015


9


Espécie análoga alguma, nenhuma medida em paridade. Não sei se sou pequena ou extensa,  se ruidosa ou quieta, se opaca ou reluzente. Só o embate com a dessemelhança. Perco o conhecimento pelas comparações. Recolho algumas pistas, mas custo a discernir o que é vestígio do que acabar de nascer.  Se me aproximo, é pelo tropeço, pelo deslize, pelo fôlego alterado em meio à placidez. Atingem-me sons que não decifro, serão de perigo ou  de escolta? O que posso conhecer é o resultado de cada impulso, desequilíbrio ou firmeza, deslocamento ou ápice de inercia. Há o indecoroso convite a nada reter e tudo tatear. Os contornos  ameaçam porque imensuráveis, mas também  guarnecem porque fieis às suas medidas singulares. O que trago comigo perde a consistência, é preciso encontrar nova munição. Alfabetizar-me em tons telúricos. Aprender a geometria dos mutualismos, a gramática das predações. Guardar, como  talismã, a lembrança de que nada é puro e sem sobras.  Forjar um novo conhecimento sobre mim mesma, perdendo a nostalgia das  semelhanças,  investindo nos efeitos de contato. E quando a hora da verdade for iminente, não fraquejar, depositar as armas no chão.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015


8

Alternadamente tombam e se erguem os andaimes. Daqui vejo o movimento desordenado. A água escoa rua afora, arremedos de pontes se estendem sobre os mananciais. O fluxo dos veículos se altera, assim como o dos passantes que disputam ferozmente os raros trechos ainda secos de chão. Quando a madeira se rompe o estalido é horroroso, faz-se um instante de silêncio antes do estardalhaço. E então os joelhos encharcados de água turva começam a se debater na corrida por uma elevação abruta ou suave, algo que os livre do nível do chão. Ela passa pelo epicentro do  desastre. Pisa firme no chão inundado, ajuda a recriar o maremoto, altera o fluxo da devastação. Passa rente  a um corpo que arde sob uma camada grossa e o outro que procura um rumor de frio.  Anda entre os corpos que se desejam ou se repelem, encostando uns nos outros, pedindo desculpas, trocando olhares famintos, apressados ou sonolentos. Ela é feita da mesma matéria dessa água que subitamente se rebela contra os caminhos de ferro e aço. Na linha imaginária traçada entre os corpos, uma mão por vezes rompe a  barreira. Um corpo frio se queima com um toque quente, outro endurece rente a uma pele estranhamente familiar. Os sonhos revestindo as pálpebras, os tremores olhos afora, tudo em confusa e ruidosa navegação. Quem os guia? A ideia da manhã que chegará avara de sentido, a tarde imersa na matéria de oceano, lágrima, benção, soro. Desejos calados em bocas que ardem, dissolvidos em tédio, sobrevoos, lampejos de muda compreensão. Passou com a rapidez e o modo de um desastre. Súbito fluxo que emerge, o cultivo das inundações. Invenção e quebra de precárias pontes. 

domingo, 16 de agosto de 2015



7

Retorno à estação. Quando não a encontro – nunca a encontro – coloco outra em seu lugar. A sucessora, rapidamente, já não difere em nada da original. Porque essa imagem exata, variável em tudo menos nisso, me faz ver a dimensão dos danos. De como era quando eu não estava lá ou é prova irrevogável de que, em verdade, nunca estive. Os trilhos em desuso, erva daninha sobre o ferro ocre, placas indicando destinos esquecidos. Poeira sobre os bancos de madeira densa, o trabalho silencioso dos insetos ruindo tudo que provisoriamente se sustém. Às vezes acordo de madrugada só para visitá-la mais uma vez. A prova. Passo os dias alternando entre visitas à antiga estação e forjando listas de urgências. Segunda:  aparar o mato. Terça: trocar as fechaduras. Quarta: dar telefonemas.  Deixar tudo sob um controle provisório enquanto, no íntimo, estremece-me a beleza das arestas. Quinta: verificar vazamentos. Sexta: perder as chaves e pegar no sono do lado de fora. Nunca compreendias. Falavas de encaixes, da importância das ondulações. Falavas mais ainda dos banhos de rio, pular ou passar por baixo das cercas, essas águas vindas de altitudes, de poços profundos ou de geleiras que nunca vi. Eu te dizia dos cumes, dos pontos de irremediável variação: vésperas, esquinas, agulhas. Investíamos em imprecisas direções. Eu me entregava à fúria das ruas, empilhamentos e terrenos baldios, rumores dos êxodos e a quietude das multidões. Tu fazias pequenas caminhadas à beira-mar. Voltavas sempre recendendo à maresia, à vida misteriosa e frágil. Eu mantinha as gavetas lacradas, costurava botões extras nas extremidades das fendas, estendia o comprimento dos tecidos, cortinas, saias,  lençóis. Um pudor todo forjado no medo de perder a sensação do obscuro. Solos lunares, maquinarias movidas a vento, radares sensíveis aos tremores terra, o que te fazia querer voltar. Mas no dia certo colocarei na minha lista a tarefa de esquecê-lo. Sabotarei motores, inverterei certezas, revelarei imprecisões. Compreenderei que mais se preserva quanto mais se ignora. Mistério que faz coincidir o porto e a tormenta. Perigo que ampara, ameaça de toda mansidão.  

sábado, 15 de agosto de 2015



 6

Perceber com as extremidades do corpo o volteio das paredes. Tatear vestígios de antigas fendas, notar a massa revestindo cavidades com imperfeito acabamento,  descobrir as cicatrizes da improvável pele. Aproximar as têmporas do concreto, investigar os fluxos de água. Perceber o esqueleto úmido da casa, descobri-lo, a um só tempo, coluna e correnteza. Era necessária muita escuta para notar a água que sobe e desce pelos andares, os passos de pés descalços e dos calçados, os rumores não humanos, as portas fechadas com raiva ou com pesar. Com o passar dos dias já era possível divisar o escoamento insondável do gás indo de uma chama a outra, aquecendo a água para banhos precisos ou dispendiosos.  Os ossos de quem dorme no quarto ao lado, rangendo a cada insônia,  no corpo a corpo com a vigília.  Distinguia as frequências da vida retilínea e oca das de vida ondulante e espessa, mas não separava os tremores de cimento e vidro daqueles dos corpos e suas precipitações. Não foi imediatamente que pressenti tua chegada. Notei antes o tremor de um fluxo não constante, de peso variável e aproximação intermitente. Suspender os caminhos de ar, altear o fôlego dos espaços, provocar súbitas palpitações.  Sentir então, com as extremidades do corpo, os volteios da tua pele, as antigas fendas revestidas de massa imperfeita, tuas úmidas sustentações. Confundir tua vida com a vida das paredes, dos corpos anônimos e do meu próprio. Intuir uma forma de permanência fundada nos convites à ruína, perceber o fluxo como súbita demora, marchar em contratempo.