segunda-feira, 24 de agosto de 2015

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Era a nossa única chance. Havia o desejo de intensificar o acaso. Não paramos para pedir nenhuma informação, seguimos pela via rápida, cruzando povoados, plantações, trilhos de trem. Eram imensos aqueles dias de verão. Talvez sua documentação não estivesse em dia, talvez não houvesse dinheiro nem para hoje. Provavelmente alguém nos perseguia no carro logo atrás. Seguíamos tentando escapar de tudo que parecesse justificado ou familiar. Eu pensava nos ladrilhos da casa dos meus pais, nos banhos na ducha do lado de fora e na ladeira que eu descia correndo, tentando perder o controle enquanto me esforçava para não cair. Estendemos as toalhas no chão pedregoso. Pensava nos seus olhos castanhos, seu cabelo escuro roçando a sua testa, suas mãos seguras entre as minhas coxas. O perigos e as dádivas se sucediam sem contrastes. Bem no centro do lago eu encarava a aparente imutabilidade do céu. Você gritou alguma coisa que não pude entender porque estava com os ouvidos submersos. Suspeitei que estivesse falando sobre a impossibilidade de voltarmos caso fossemos além daquele ponto, ou sobre a profundidade desconhecida do lago, ou ainda sobre a variedade de peixes  que ali havia, ou ainda mais certo que fizesse alguma analogia entre o acaso e a apneia. Era também possível que dissesse que já ali pressentia a aproximação de algo decisivo, um estranho efeito de nossas contingentes incursões, algo ainda imperceptível mas já existente como a efetivação de um destino.    

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