sexta-feira, 8 de agosto de 2014

É que o dia passa a seco, nenhuma dormência, nenhum esquecimento. O dia pesado e rígido diante do espelho, revestindo todas as paredes, fazendo peso invisível no chão. Difícil eleger o que é alegria nesse emaranhado de claridade e espera. Estranho recorrer a esses velhos nomes, sem  desejo de encontro, apenas pelo prazer da fantasia colada em cada um, apenas o prazer de dizê-los,  a língua estalando no céu da boca, se debatendo contra os dentes. São ainda mais estranhas essas investigações: quanto pesava, havia algo nascendo dentro, como estava por fora, como lhe chamavam,  valia quanto.  Observa-se todos os aspectos, quantidades presentes no eixo x e no outro, mas sobretudo o indizível, acima de tudo a mudez. Acima de tudo a mudez porque era ali que nos encontrávamos: a muda sedução enquanto você ia ao banheiro e eu ficava esperando na sala ao lado, você dormindo um colchão acima do meu, as boca preenchidas talvez se querendo durante o jantar. Ainda mais quando eu estava sem nenhuma notícia sua e infinitamente mais quando sequer nos conhecíamos. É que você pensa que é tão esperta, me disse que quando criança leu o dicionário inteiro,  A a Z, daqueles bem grandões. Você decorou todas as capitais do mundo e os principais rios de cada continente. Aquele dia você estava tão alegre  dizendo  Volga Danúbio Douro Ural Dniepre Kama Don Péchora Dniestre Reno. E eu decorando cada parte do teu rosto, a testa larga, os olhos rasgados lembrança de alguma selva ou savana, a boca tortinha para a esquerda, o nariz apontando para cima. A boca tortinha perturbando toda a noite e talvez o mundo inteiro. Dvina Setentrional e Ocidental Elba Donetz Vistula Weser. Teus cabelos cor de palha queimada, teu cheiro de verão desafiando o alto inverno. Sena Ardila Loire. Tua voz. O Tejo. E o calmo sentido das coisas era muito parecido com a incontrolável confusão daquela hora feita de pele,  medo, luminosidade, geografia, correnteza. 

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