terça-feira, 25 de setembro de 2012


    Senhora das Tempestades
    Manuel Alegre

    Senhora das tempestades e dos mistérios originais
    quando tu chegas a terra treme do lado esquerdo
    trazes o terremoto a assombração as conjunções fatais
    e as vozes negras da noite Senhora do meu espanto e do meu medo.

    Senhora das marés vivas e das praias batidas pelo vento
    há uma lua do avesso quando chegas
    crepúsculos carregados de presságios e o lamento
    dos que morrem nos naufrágios Senhora das vozes negras.

    Senhora do vento norte com teu manto de sal e espuma
    nasce uma estrela cadente de chegares
    e há um poema escrito em páginas nenhuma
    quando caminhas sobre as águas Senhora dos sete mares.

    Conjugação de fogo e luz e no entanto eclipse
    trazes a linha magnética da minha vida Senhora da minha morte
    teu nome escreve-se na areia e é uma palavra que só Deus disse
    quando tu chegas começa a música Senhora do vento norte.

    Escreverei para ti o poema mais triste
    Senhora dos cabelos de alga onde se escondem as divindades
    quando me tocas há um país que não existe
    e um anjo poisa-me nos ombros Senhora das Tempestades.

    Senhora do sol do sul com que me cegas
    a terra toda treme nos meus músculos
    consonância dissonância Senhora das vozes negras
    coroada de todos os crepúsculos.

    Senhora da vida que passa e do sentido trágico
    do rio das vogais Senhora da litúrgica
    sibilação das consoantes com seu absurdo mágico
    de que não fica senão a breve música.

    Senhora do poema e da oculta fórmula da escrita
    alquimia de sons Senhora do vento norte
    que trazes a palavra nunca dita
    Senhora da minha vida Senhora da minha morte.

    Senhora dos pés de cabra e dos parágrafos proibidos
    que te disfarças de metáfora e de soprar marítimo
    Senhora que me dóis em todos os sentidos
    como um ritmo só ritmo como um ritmo.

    Batem as sílabas da noite na oclusão das coronárias
    Senhora da circulação que mata e ressuscita
    trazes o mar a chuva as procelárias
    batem as sílabas da noite e és tu a voz que dita.

    Batem os sons os signos os sinais
    trazes a festa e a despedida Senhora dos instantes
    fica o sentido trágico do rio das vogais
    o mágico passar das consoantes.

    Senhora nua deitada sobre o branco
    com tua rosa dos ventos e teu cruzeiro do sul
    nascem faunos com tridentes no teu flanco
    Senhora de branco deitada no azul.

    Senhora das águas transbordantes no cais de súbito vazio
    Senhora dos navegantes com teu astrolábio e tua errância
    teu rosto de sereia à proa de um navio
    tudo em ti é partida tudo em ti é distância.

    Senhora da hora solitária do entardecer
    ninguém sabe se chegas como graça ou como estigma
    onde tu moras começa o acontecer
    tudo em ti é surpresa Senhora do grande enigma.

    Tudo em ti é perder Senhora quantas vezes
    Setembro te levou para as metrópoles excessivas
    batem as sílabas do tempo no rolar dos meses
    tudo em ti é retorno Senhora das marés vivas.

    Senhora do vento com teu cavalo cor de acaso
    tua ternura e teu chicote sobre a tristeza e a agonia
    galopas no meu sangue com teu catéter chamado Pégaso
    e vais de vaso em vaso Senhora da arritmia.

    Tudo em ti é magia e tensão extrema
    Senhora dos teoremas e dos relâmpagos marinhos
    batem as sílabas da noite no coração do poema
    Senhora das tempestades e dos líquidos caminhos.

    Tudo em ti é milagre Senhora da energia
    quando tu chegas a terra treme e dançam as divindades
    batem as sílabas da noite e tudo é uma alquimia
    ao som do nome que só Deus sabe Senhora das tempestades.





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