quarta-feira, 11 de julho de 2012


Ao que não olhei

Foi porque pensava em pés que criam escritura
no gesto e no ato de tocar o chão
pensava em olhos dançarinos
que se curam no corpo a corpo com o espaço
foi porque pensava em corpos que brincam com o perigo que eu não pude te olhar
porque não choravas nem gemias que evitei teu rosto
porque envolveste tua dor em um plástico preto e grosso
como esses de esconder os mortos
senti que era minha obrigação mais urgente sentar do teu lado
lavar teu corpo com meu suor e minha saliva
te dar pão, calor, morfina
te perfumar
e sobretudo olhar diretamente a tua carne 
teus músculos, teus ligamentos
nascer na tua ferida, me recriar  
depois te dar meus braços
para que tu também  pudesses escolher provir de mim
era meu destino irresistível sujar minha pele
minha roupa limpa ainda quente do sol
nas manchas do teu corpo
e mergulhar eu mesma no teu reino-chão
mas não pude porque pensava em corpos leves
nas correntes de ar que enfrentavam os meus olhos
porque tive medo do inferno escuro da tua esquina úmida
ou foi só porque eu pensava em corpos leves que olhei teus pés
e tua ferida era minha ferida
e teus pés doentes, meus pés doentes
tua cachaça, minha morfina
teu cão imundo, o corpo do meu amante por quem morro
porque tua cama era meu inferno que não te olhei nos olhos
porque teu rosto calmo e silencioso e teus pés em carne viva
eram meus pés querendo a intensidade de todos os riscos
teus olhos seriam o escuro do abismo
que meus pés hesitantes bordejam
e teus pés abertos eram o pleno e bruto
encontro com o chão

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