quinta-feira, 25 de abril de 2013


Rosto coberto de avesso















Uma névoa quente

Num impulso, cortei minha franja com uma tesoura de cozinha. Vejo que fica torta e muito curta e me dá vontade de rir. Lembro-me da transgressão infantil de trancar-me no banheiro com uma tesoura e cortar livremente meu cabelo sem nenhum  critério, para o susto e apreensão da minha mãe. Uma pequena experiência libertadora de quem assume o corpo como seu, de quem faz um pequeno uso secreto e indevido de si. Semanas seguiam com a minha mãe passando gel para tentar domar a franja feia, usando grampos rentes à minha testa e me lembrando diariamente do gesto inconsequente. Aos vinte e três anos, sem precisar me esconder para deixar minha franja curta e torta, com o chuveiro quente ligado vejo minha imagem ficando cada vez mais embaçada no espelho e passo algum tempo diante da figura enevoada, encarando camadas do meu rosto antigo-atual se tornando borrão.
Banheiro de um hotel no Canadá. Ligo o chuveiro para entrar no banho e vejo, novamente, minha figura tornando-se mancha. Com a franja já reta e um pouco maior, mas ainda atingida pela fragilidade assumida pelo meu reflexo, sinto desejo de registrar o processo do meu corpo se encarando num espelho, primeiro nítido no espelho frio, depois esfumaçado pela superfície umedecida. Quem fotografa é a minha mãe, essa que agora me ajuda nesses pequenos manejos  incomuns  de mim mesma. Ela se posiciona ao meu lado, desligamos e religamos o chuveiro  quente e ela fotografa. O resultado são imagens monótonas, que quase não diferem. A passagem do tempo só é notada por pequenas alterações da minha postura e pelo espelho que, depois de muitos quadros, se torna completamente embaçado. Um rosto coberto de névoa quente, enquanto o corpo aguarda, permanece, do lado de cá.


Um rosto coberto de avesso

Passeando pela lojinha de um museu, encontro um livro de anatomia humana. Não resisto às imagens estranhas, belas, cortantes. Cresci em torno de livros como esses e mesmo de coisas como estas, já que – ainda criança – costumava ajudar minha mãe em sessões de macroscopia que consistiam em transcrever frases ditadas por ela enquanto ela fatiava órgãos a serem analisados. Ela provavelmente estava apenas querendo me ensinar o valor e a importância do trabalho. Mas o ato de escrever enquanto minha mãe manuseava vísceras deve ter me atingido de alguma maneira que não entendo, pois até hoje me interessa fazer uso dessas imagens de anatomia num contexto ficcional, inventivo. As imagens que mais me chamam a atenção no livro são parte de uma sequência de homens que abrem a própria barriga com as mãos para mostrar o interior. De algum modo, sinto que repito esse gesto. Quando produzo, sei que quero mostrar algum avesso, alguma entranha. Mas sinto que meu gesto difere, já que não é a entranha como um fim que me interessa, mas a invenção que posso fazer dela, a máscara que posso criar com essa matéria. A minha entranha não é uma verdade, mas uma criação. Esse é meu rosto coberto de avesso.


Cortes

Releio os textos que produzi nos primeiros meses de 2012, parte da disciplina de Processos Artísticos Contemporâneos.  A pergunta é: como torna-los um trabalho visual, uma proposição plástica? Os próprios textos contêm muitas chaves e pistas para essa elaboração. Volto-me, uma vez mais, para o papel. Imprimo os textos e separo trechos que me parecem, por alguma razão, mais indispensáveis que outros.  Num processo lento e difícil, colo – frase a frase- num caderno vermelho. Poderia escrever a mão, sinto que seria mais fácil e rápido – mas uso dessa técnica de sequestradores e de admiradores secretos, de criar uma caligrafia com letras já formadas.  Ainda à maneira de sequestradores e amantes platônicos sinto que há, nesse gesto, uma emoção que se revela numa tentativa torta de impessoalidade, de anonimato. A paixão revelada no tremular de uma mão que se implica, mais do nunca, no próprio gesto com o qual pretendia se anular. Mostrar-me através de uma tentativa de esconderijo, essa jogada que tantas vezes recorre.


Insisto

São gestos que me desafiam. Recortar colar recortar colar, não sabia que era tão difícil manusear a cola. Depois passo madrugadas desenhando pontos e outra cobrindo o branco papel de tinta preta. Encontro a forma desse trabalho através de procedimentos que me fazem querer desistir deles próprios, de exaustivos que são. Mas insisto. Quero descobrir uma paciência que não tenho, quero inventar uma habilidade que não possuo. Quero ser mais forte que eu.


Astronomias

Injustificável é essa minha atração por objetos de estudar o cosmos. Vou ao sebo e compro livros de astronomia em língua estranha. Passeio em planetários. Penso em comprar um telescópio e aponta-lo ao teto concreto do meu quarto. Existe algo nesse projeto insano de compreender os astros que me encanta. Um esforço em torno do imensurável. Uma técnica para não cegar, um modo de encarar espectros de astros, que dizem que nem estão mais lá. É o rigor diante do infinito que me cativa. São  as tentativa sinceras e precárias que me encantam. Entender a mim mesma, entender o que faço, apontar o astrolábio na minha direção, parece ser o mesmo indispensável e dispendioso esforço.


Gelo liso

Um pequeno aforismo de Nietzsche que , pra mim, fala do processo de criar. Criação, esse passeio num terreno de quedas, onde só se pode estar quem sabe criar o imprevisível do corpo, a dança desvairada dos afetos.  

02.08.2012


quinta-feira, 18 de abril de 2013







A exposição de Eduardo Berliner, presente na Sala A Contemporânea do CCBB-RJ no período de 26 de fevereiro a 31 de março, é composta de pinturas sobre tela, pinturas e desenhos sobre papel, objetos escultóricos, vídeos e fotografia. Em suas figurações, o artista apresenta um mundo sem contornos definidos, feito de súbitos lampejos e iminentes dissoluções.  Utiliza-se da tinta borrando limites, transbordando margens. Seus traços invadem, abruptamente, campos de cor. Com uma paleta que tende para tons escuros, constrói céus sombrios, cenários úmidos e focos de fogo. Quando o calor se mostra em cor é no vermelho do sangue ou das flores  que surgem sobre a estranha aridez que as fecunda.  A presença da figura humana recorre, envolta de paisagem bucólica ou na arquitetura da cidade.  Os atritos entre corpo e mundo são feitos de perfurações, capturas, dilaceramentos, pancadas. Pinceladas furiosas constroem a pele como uma massa de ocres, compondo corpos desmembrados e membros sem corpos, que anunciam presenças irreveladas. Nos contatos  entre  corpos, a violência não é óbvia, mostra-se aguda e pungente. Há também ternuras que persistem, sujeitos que testemunham a fragilidade de outros e, assim, também a própria finitude.



As figurações de Berliner apontam a uma intimidade estrangeira com o mundo. Do banal emerge o inesperado. Do conhecido, o susto. Nesse sentido, o artista persegue a gramática dos sonhos: o mais alheio produzido pelo profundamente pessoal.  O artista introduz nas suas imagens esse teor indesvendável do onírico, aquilo que, tendo parentesco com o conhecido, está fora da simbolização, estranho à linguagem e suas normativas. A arquitetura da cidade,  promovedora da inação, do tédio e da preguiça, pode ser o cenário da angústia e do fascínio. O estranho, em Berliner, faz corte com qualquer homogeneidade apaziguada. O artista coloca em questão o desenho de observação, apresentando-o como uma experiência de nascimento: o que nasce sempre tem a potência de perturbar o mundo. O imaginário da infância, que recorre em suas obras, pode ser tomado como um duplo do seu próprio gesto: a infância, assim como a obra, abre um rasgo que faz vacilar as estruturas das instituições. A verdade da produção poética e a verdade da infância são alheias às  medidas do saber constituído, são potentes de um modo diverso ao do poder como se conhece. Ambas chegam ao mundo com exigências de hospitalidade inconformadas com as medidas estabelecidas.  Eduardo Berliner trabalha a superfície como enigma, figura o reconhecível que produz mistério, peles que se dilaceram em aparatos protéticos e a infância como campo de tensões em que o surgimento do diverso acolhe o mundo e seus nascimentos súbitos.


* uma versão editada desse texto foi publicada na revista Dasartes n. 27 
** imagens: reprodução de obras de Eduardo Berliner 

segunda-feira, 25 de março de 2013



Prestou devoção aos detalhes, abriu frestas de um embrulho, manteve as portas inertes. Todo dia essa luta, a permanência dos corpos sólidos e o temporal incoerente que molha as plantas já regadas, o  chão dissimulado, os furores de dentro. Dentro, uma batida forte. Marcação de um compasso antigo no seu peito e uma voz  ao longe que diz: é preciso acreditar na diferença, a fidelidade é uma muralha que nos protege de querer compreender  qualquer coisa por inteiro. Ela se sentava para dançar, só os dedos correndo pelas superfícies. Experimentava texturas, às vezes gritava. Seus sustos eram sem razão. Ela inteira dentro de uma atmosfera forjada: a luz do dia não dizia nada sobre seu corpo, quem era, ao sol do meio dia? E depois, às três? Invejou os seres guiados pela luminosidade, o tropismo das plantas, o delírio mortal das mariposas. Que a luz fosse esse sentido, essa sedução. Mas fechava-se em um escuro sem saída. O único caminho era mesmo a dança das suas mãos. Com seus dedos urdia uma mortalha. Linho para revestir a morte ou manta de acolher nascidos? Melhor era lavar a casa, esfregar as paredes, os azulejos, o chão antigo. Investigar os cantos, tentar a paz com os animais.  Mas o dia passava e sua febre era a direção de seus impulsos. Machucava-se contra as superfícies, como quem de repente deixa de caber e depois tornava a conviver com as medidas que conhecia, buscando o cálculo exato que revelasse a anatomia  do acidente, do acaso bruto tornado lenta vida.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013



Diálogo com Georges Bataille*


Eu: Sobre o papel, me curvo: tracejando o papel e as horas, ocupando as formas e os instantes. O que irrompe são imagens que dançam. Figuram e desvanecem, vivem. Mão e forma se  impulsionam mutuamente: feito  a sístole e a diástole que sustentam um corpo.

Ele: (...) a obscenidade escondida no fundo de nosso coração. (p.126)

Eu: São desenhos obscenos?  Não pela natureza do que figuram, mas pela intensidade com a qual dão ver algo que não é localizável no visível, provendo existência do que antes não estava em cena. O esforço da mão criar o que não controla  é obsceno, porque  dispendioso e  excessivo. Mas, se a intenção é  imoderada, o gesto é simples: disposição de tinta preta sobre um fundo branco. A estratégia é  criar contornos e depois texturas que se integrem  buscando o efeito de volume, de carnalidade,

Ele: A carne é em nós esse excesso que se opõe à lei da decência. (P.86)

Eu: Sim, são desenhos do excesso. A única lei que os regula é a lei dos nascimentos inesperados, essa vocação primeira da vida. 

Ele: (...) a vida é armadilha feita ao equilíbrio, (...) toda ela significa uma situação instável, desequilibrada, para onde nos conduz. É um movimento tumultuoso que se encaminha constantemente para a explosão. Mas,  se a explosão contínua não consegue esgotá-la, ela só prossegue sob uma condição: que entre os seres que ela gerou, aqueles cuja força de explosão está esgotada, cedam o lugar a novos seres, entre no círculo com uma força nova. (p. 56)

Eu: As formas que proponho são afirmativas do surgimento e da desaparição, são desenhos que incluem a dissolução. São fabulações em torno da permanência e do desvanecimento, já que apresentam equilíbrios provisórios, apetites apenas brevemente satisfeitos.

Ele: Entre um ser e outro, há um abismo, uma descontinuidade.  (...) Mas não posso evocar este abismo que nos separa sem ter logo o sentimento de uma mentira. Este abismo é profundo, e não vejo como suprimi-lo. Somente podemos, em comum, sentir a sua vertigem. Ele nos pode fascinar. Este abismo, num sentido, é a morte, e a morte é vertiginosa, fascinante. ( p.12)

Eu: Há uma vertigem dos aniquilamentos. Será por isso que desenho? Porque tudo fenece e desaba me entrego à pulsão de formar. Criar existências quando tudo está fadado a inexistir é um salto no inseguro. São desenhos que jogam com as forças da vida e da morte: esqueletos e crianças  interagem. Revelam a intensidade das formas com vocação para o informe, do estável que se abre ao aviso de todos os abalos.

Ele: O que está em jogo no erotismo é sempre uma dissolução das formas constituídas. (p. 18)

Eu: Apesar de serem meticulosamente construídas, acredito que sejam desenhos que lidam com a dissolução. Não apenas pelas texturas se misturam e se ultrapassam,  mas pela própria natureza das composições. As figuras concebidas são intuitivas, surgem de sonhos, pesadelos, de significantes que irrompem. Crianças que jogam, esqueletos, vísceras, animais, musculaturas, camuflagens, regiões negras, cabelo, insetos, asas e corpos povoam nichos, interessa-me essa aglomeração sobre o esvaziamento. Busco trabalhar a relação entre o excesso e o vazio, o pleno em suas duas faces.

Ele: A continuidade é dada na superação dos limites. (p. 112) Essencialmente, o domínio do erotismo é o domínio da violência, o domínio da violação. (...) Toda a concretização erótica tem por princípio uma destruição da estrutura do ser fechado (...). ( p. 16)

Eu: Tratam-se de formas contínuas que se suprimem, de fato. Se há um léxico que as amarra, não é o das significações, mas o das formas, o das superfícies. São peles, ossos, penas, texturas que se confundem, porque guardam em si a vocação dos entrelaçamentos. São traços que tangem a qualidade dos corpos de se prenderem, de se seduzirem. Não são narrativas, mas lampejos – como um daqueles sonhos que nos devoram pela noite e na manhã seguinte não se consegue narra-lo. Os títulos sugerem situações, mas não explicam em qual casualidade se dão. São como pistas de segredos, a parte visível de uma intimidade, inatingível pela interpretação, não por ser abissal, mas antes por ser plena superfície. São afirmações em torno do silêncio, gestos prolixos que margeiam o inapreensível.

Ele: Em princípio, a experiência erótica nos conduz ao silêncio. (p. 235)

Eu: Há sim uma potência erótica que os atravessa, já que foi a partir do significante do erotismo que foram elaborados. São eróticos porque tratam da dissolução da forma, de contornos abalados, de peles que se habitam. São eróticos porque insinuam algo a respeito do qual não podem responder, porque dão a ver o que não está lá. São eróticos porque escondem.

Ele(...) a essência do erotismo é a mácula. (p. 136)

Eu: São formas que maculam a noção de centro, de estrutura. Guardam em si um equilíbrio secreto, onde tudo parece sem eixo, há uma ordem que os conserva.  Pretendem ser uma espécie de liturgia dos corpos. A celebração da capacidade orgânica para a aderência e a aniquilação. 

Ele: Com efeito, se bem que a atividade erótica seja inicialmente uma exuberância da vida, o objeto dessa procura psicológica, independente, como eu o disse, da preocupação de reprodução da vida, não é estranho à morte. (p. 11)

Eu: Esses corpos nascem do meu. Do pleno engajamento entre minha mão e o vazio, esse campo repleto do possível.  Para falar destes desenhos e da potência erótica que os atravessa, sinto que tremulo, que hesito. Bordejo uma espécie de indizível, tateio um segredo que não ouso desvendar.

Ele: (...) sentimos tudo o que é a poesia. Ela nos funda, mas não sabemos falar dela. (p.23)

Eu: Emudeço diante dessa fatura à qual me sinto compelida. Quando desenho, esqueço quem sou. Sou o próprio desenho em nascimento.

Ele: O ser, com frequência, parece dado ao homem fora dos movimentos da paixão. E eu direi mesmo que nunca devemos imaginá-lo fora desses movimentos. (p. 12)

Eu: Aproxima-se de uma experiência mística, de uma interação com o mistério, com o que não se pode nomear.

Ele: Todo erotismo é sagrado. (p. 15)

Eu: Se os desenhos tem sua face erótica, será que o próprio gesto de desenhar pode ser erótico de algum modo ?

Ele: A ação decisiva é o desnudamento. ( p. 17)

Eu: Desnudar-me seria despir de artifícios, ater-me a alguma espécie de essência?

Ele: Mas a transgressão difere da “volta à natureza”: ela suspende o interdito sem suprimi-lo. (p. 33)

Eu: O erotismo presente no ato de desenhar não tem a ver com a exposição de uma verdade, de um interior obliterado. Pelo contrário, tem a ver com a criação de uma natureza, com o manejo do artificial tomado  como essência. É o engajamento pleno no que não se conheço. Dispo-me, ao desenhar, quando coloco meu corpo todo atento e disponível ao que nem eu mesma sei que é, ao imprevisível da minha criação. É um gesto de amor.

Ele: O ser amado para o amante é a transparência do mundo. (...) É o ser pleno, ilimitado, que não limita mais a descontinuidade pessoal. É, em síntese, a continuidade do ser percebida como uma libertação a partir do ser do amante. Há uma absurda, uma enorme desordem nessa aparência, mas, através do absurdo, da desordem, do sofrimento, uma verdade de milagre. Nada, no fundo, é ilusório na verdade do amor: o ser amado equivale para o amante, para o amante só, sem dúvida, pouco importa, à verdade do ser. O acaso quer que, através dele,  a complexidade do mundo tendo desaparecido, o amante perceba o fundo do ser, a simplicidade do ser. (p.20)

Eu: Você sempre fala dessas experiências do excesso, do inesperado que se apresenta pleno, como a experiência do milagre. Que limite é preciso atravessar para alcançar essa face irrefreável da existência?

Ele: A experiência interior do homem é dada no instante em que, rompendo a crisálida, ele tem consciência de se rasgar a si mesmo e não a resistência colocada de fora. (p. 36)

Eu: A mim mesma, portanto, preciso rasgar para encontrar esse território desmedido das possibilidades. Uma espécie de auto-imolação imposta à todo aquele que cria.

Ele: É geralmente próprio do sacrifício harmonizar a vida e a morte, dar à morte o jorro da vida, à vida o peso, a vertigem e a abertura da morte. É a vida misturada à morte, mas, no sacrifício, a morte é ao mesmo tempo signo da vida, abertura ao ilimitado. (p.85)

Eu: O ilimitado da morte pode ser experimentado em vida?

Ele: (...) no reino da continuidade inflamada pelo amor. (p.111)

Eu: O amor como um investimento no incerto, uma aposta naquilo que não garante nada. O amor como o dispêndio de si no que não se pode nomear.  

Ele: Não encontramos felicidade verdadeira senão no gasto inútil, como se uma ferida se abrisse em nós: queremos sempre estar seguros da inutilidade, às vezes, do caráter ruinoso de nosso gasto. Queremos nos sentir bem distantes de tudo, onde o aumento dos recursos é a regra. “Bem distantes” diz muito pouco. Queremos um mundo subvertido, queremos o mundo pelo avesso. A verdade do erotismo é a traição. (p.161)

Eu: O erotismo como a traição das economias? Das verdades asseguradoras? Nesse sentido, o gesto artístico tem sempre um núcleo erótico. De onde vem essa fagulha desviante?

Ele: O ser também é o excesso do ser, acesso ao impossível. (p.163)

Eu: No mais íntimo, o mais estranho. O fundamental é também a desmedida. Acho que essas impressões estão presentes na fatura dos meus desenhos. São excessos essenciais. Retratos do ser em desmesura, em relação com as impossibilidades. Como você faz para tratar do ser nessa face obscura, que toda hora sinto prestes a perder, que me escorre pelos dedos sem que eu possa apreender?                                               

Ele: Sinto-me livre para fracassar. (p. 237)

Eu: O fracasso é também uma potência. O desvio dita a norma. A infâmia pode ser a grande virtude.

Ele: (...) Felix culpa! – a bem aventurada culpa! – o que nos resgata é ao mesmo tempo o que não deveria ter acontecido (...) cujo próprio excesso nos resgata. (p. 243)

Eu: Trata-se, portanto, dessa alquimia: a culpa que resgata, a morte cuja potência se revela em vida, o desmedido que tem forma, a forma fechada que se deixa atravessar. Essa é a potência erótica que apreendo: o apetite dos corpos, a potência das aberturas, o desejo pelos ápices e pelos mergulhos.

Ele: Se alguém me perguntasse o que nós somos, eu lhe responderia: que somos essa abertura a todo possível, essa espera que nenhuma satisfação material acalmará e que o  jogo da linguagem não saberia iludir! Estamos à procura de um ponto culminante. (p. 253)

Eu: Não sei bem se entendi tudo o que você falou, mas foi bom conversar. Falar me deu a medida do só posso contornar. 

Ele: De minha parte - parece-me que, ao falar, prestei uma espécie de homenagem – bastante pesada – ao silêncio. (p.245)

* Todas as citações d’Ele são de Georges Bataille, presentes no livro O Erotismo, tradução de Antonio Carlos Viana, Porto Alegre: L&PM, 1987. As páginas de onde foram extraídas estão ao lado de cada citação.


quinta-feira, 24 de janeiro de 2013



colaboração para a revista Dasartes n.25. sobre a exposição Tração Animal de Raul Mourão. (clica que aumenta)

sábado, 12 de janeiro de 2013




Lesbos

Crueldade na cozinha!
As batatas assobiam.
Tudo isso é Hollywood, sem janelas,
A luz fluorecente estremece acessa e apagada como uma enxaqueca,
Pequenas tiras de papel para as portas
Cortinas de palco, o frisado da viúva.
E eu, amor, sou uma mentirosa doentia,
E minha criança – olha o rosto dela voltado para o chão,
Pequeno fantoche desatado, pulando até sumir
Porque ela é esquizofrênica,  
Tem a face vermelha e branca, o pânico,
Tu prendeste seus gatos para fora da janela 
Em uma espécie de roda de cimento
Onde eles cagam, vomitam, choram e ela não ouve.
Tu dizes não a suportar,
Essa menina bastarda.
Tu que sopraste teus canos como um radio ruim
Limpa de vozes e de história, estática
O ruído do novo.
Dizes que eu deveria afogar os gatos. Eles fedem!
que eu deveria afogar minha menina.
Ela iria cortar sua garganta no dez se fosse louca no dois.
Os sorrisos do bebê, gordo caracol,
Das pastilhas polidas de linóleo laranja.
Você poderia comê-lo. É um menino.
Dizes que teu marido não é bom o suficiente para ti.
Sua mãe judia guarda seu suave sexo como uma pérola.
Tu tens um filho, eu tenho dois.
Eu deveria sentar em uma pedra na Cornualha e pentear meu cabelo.
Eu deveria usar calças de tigre e deveria me envolver com alguém.
Nós deveríamos nos encontrar em outra vida, deveríamos nos encontrar no ar,
Eu e tu.

Enquanto isso, há cheiro de gordura e de cocô de bebê.
Estou dopada e turva do meu ultimo sonífero.
A poluição de cozinhar, a poluição do inferno
Flutuam nossas cabeças, dois nocivos opostos,
Nossos ossos, nosso cabelo.
Te chamo de Órfã, orfã. Tu estás doente.
O sol te causa uma úlcera, o vento te dá tuberculose
Uma vez fomos bonitas.
Em Nova York, em Hollywood, os homens diziam: “Pronto?
Oh baby, você é rara”
Você agiu, agiu pelo tremor.
O marido impotente sai para um café.
Eu tento mantê-lo dentro,
Um velho para-raios,
Os banhos ácidos, os céus fora de ti.
Ele impele para baixo da colina coberta de plástico,
Fustigado trem. Faíscas azuis.
O transbordamento das faíscas azuis,
Derramando-se feito um quartzo em milhões de pedacinhos.

Ó jóia! Ó valiosa!
Essa noite a lua
Arrastou sua bolsa de sangue, doente
Animal
Acima das luzes do porto.
E quando elas nasceram normais,
Intensas, separadas e brancas.
Na areia, a escala dos brilhos me matava de medo.
Continuávamos colhendo de mãos cheias, amando,
Moldando como se fosse massa de pão, um corpo mulato,
Os grãos de seda.
Um cachorro pegou seu marido cão. Ele passou.

Agora estou silenciosa, ódio
Acima do meu pescoço,
Grosso, grosso.
Eu não falo.
Estou embalando grossas batatas como boas roupas,
Estou embalando os bebês,
Estou embalando os gatos enfermos.
Ó vaso de acidez,
De amor tu estás cheia. Tu sabes a quem odeias.
Ele está abraçando a sua bola e acorrentado por baixo da porta
Isso abre o mar
Quando arrasta, branco e preto,
Vomita, então, de volta.
Todos os dias tu o preenches com estofo de alma, como um jarro.
Tu estás exausta.
Tua voz é o meu brinco,
Agitando e sugando, morcego amante de sangue.
Isso é o que é.
Tu escutas pela porta,
Bruxa triste. “Toda mulher é uma puta.
Eu não consigo dizer.”                                                                                                                          

Vejo tua bela decoração
Fechada em ti como o punho de um bebê
Ou uma anêmona, no mar
Meu bem, essa cleptomaníaca.
Eu ainda estou crua.
Eu digo que posso estar de volta.
Tu sabes para que servem as mentiras.

Nem mesmo no teu paraíso Zen iremos nos encontrar.



Minha tradução livre do poema Lesbos de Sylvia Plath.
Fotografia de Cecília Cavalieri

domingo, 23 de dezembro de 2012

Quando eu tinha 20 anos escrevi esse pequeno romance. Desde então, nunca achei que valesse a pena mostra-lo ao mundo. Hoje parei para revê-lo e tudo fez muito sentido, mesmo o que me pareceu ingênuo. E mais sentido ainda fez reencontrar essa que um dia eu fui. Não tem nada de virtuoso aí, mas muita honestidade juvenil. Para que eu não esqueça nunca mais, para minha mãe, para Simone Weil e Joana D'Arc, para o leitor. 

http://pt.scribd.com/doc/117805241/Historia-das-Cinzas-Priscilla-Menezes