segunda-feira, 17 de abril de 2017

Lete

não há/nunca houve nada de mau
há o rumor
desse prédio que oscila
da poeira sobre o aparador
há principalmente o silêncio violento
onde ecoa o que é vivo e range
há uma explosão que testemunho
longe ao norte
dentro do meu peito
há os truques que faço para te atrair
minha versão ampla generosa 
as distâncias calculadas, a sutileza
mas você me convoca furiosa galopante
porque às vezes é disso que se trata
o amor
punhal e lava
dar as costas
dizer: desse corpo aqui você não prova mais
lembrar que nunca houve nada de mau, mas há bifurcação
tempo de dizer adeus
empilhar, dissimular
esquecer 
da luminosa comunhão que nos salvou da noite longa
de como nós dois juntos éramos fagulha
farol
faço do espaço que restou um recuo onde tomo velocidade e caio em cheio
no que é fatal
e te abandono assim como quem mergulhasse de cabeça
em terra recém semeada,
no mar mais abundante  

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

desenhos com prints disponíveis

Prints assinados, numerados, impressos em papel fosco de gramatura 140g/m2. Pedidos através do priscilla.menezes@gmail.com


Ferocidade frágil 


Matriarcado

                                                               I welcome the waves
Preparando o vôo

Ferocidade frágil (2)


Selva dentro

Em mim mas não completamente

As armas secretas

De conchinha com o cosmos

Incontornável



                                                                          Tectônica


Amazona d'água


Aliança

Mulher à beira de si

Onde dormem as feras, onde elas acordam


Prenha do próprio avesso


Faço-me a muitas mãos
peito-floresta

uma ilha entre dois mares 
onça


amiga arraia 

amiga morsa


amigo cardume


amigo jacaré

amigo peixe


amigo touro


amigo urso

amor (2)


amor (1)


jardim

cavalo


cavalo (2)




equilibrista


erva daninha

                                                                        galope
                                                     o que se ergue, o que se desfaz

                                                      tecer a própria vela


                                                                 travessia

                                                                última dança (1)


                                                             última dança (2)


                                                             última dança (3)


                                                             última dança (4)



xifópagas

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

água forte


                                           


desde aquele dia: sonhar com trampolins, mar aberto, correnteza. aquele abraço tão brutal porque exato. que me cortou ao meio, que me fez querer voltar, que me ofereceu tudo sem prometer coisa nenhuma. mesmo agora, a um oceano de distância, mesmo quando te tocava, mesmo antes de te conhecer. agora sem pistas do teu paradeiro, mas de alguma forma ainda estamos dançando ao relento. mãos dadas e os pés entrelaçados sob um céu escuro, sob uma tenda armada em solo estrangeiro, sob um ventilador de teto. but lovers are strangers e eu assisto a uma copilação de saltos ornamentais. me prende sem alívio aquele instante que separa a preparação do salto propriamente dito. o segundo em que o mergulhador precisa se desfazer de si e tornar-se pura queda rumo ao imprevisto. todo desejo de conservação subitamente se transmuta em vontade de vertigem. desde aquele dia quero te contar sobre lançar-se no que não se distingue, sobre os banhos de mar à meia-noite. a praia tomada por crianças, amantes, todo tipo de criatura voraz. porque só os que muito desconhecem é que podem desejar, because lovers are strangers, porque é preciso ser criança, amante, bicho para lançar-se no vazio com o peito aberto. me lanço agora nesses dias sem você e os preencho de magia simples: sentir o pulso de um coração que não o meu, depositar moedas no cruzamento de duas estradas, tirar todos os espinhos de uma flor, dar de beber a quem tem sede. é assim que aciono algumas engrenagens invisíveis, mas o mistério segue inviolável. hoje um amigo veio aqui em casa contar que sonhou comigo. eu chegava de jangada em são paulo (são paulo tinha praia) e avisava que estava dando uma volta ao mundo nessa frágil embarcação. e quem é que não está? afinal lovers are strangers, estamos todos a um pulo do que sequer imaginamos. o que precisamos é manter a fúria, a coragem e a fé. fúria para mover o mundo. coragem para se fazer estrangeiro em relação a si. fé nos mergulhos, esse outro nome para nascer e então nascer de novo.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016



desenho: Amélie Fontaine

Existe aquilo que navega, aquilo que derruba muros, aquilo que cega. Com todos podemos aprender esse gesto de nada fixar, de estar à altura do que advém. Um dia estava num ônibus e vi um menino colocar a cabeça para fora e apanhar a chuva com a língua e isso tinha a forma e a força de um milagre. Mas era preciso ser um pouco criança, um pouco sede e um pouco chuva para ver. Poucas vezes eu soube distinguir o que era desvio do que era rota, mas sabia que queria pegar o mundo pelas margens, ali onde é altitude, abismo, fratura, terreno baldio. Soube que precisava me assombrar, tatear as coisas sem nome, me saber mínima e cheia de coragem. Alcançar e demolir o olhar que mais desejo. Mas não deixei nem por um instante de desejar o tremor do impossível rente ao peito e o peito em marcha. Ontem vi crianças correrem para dentro do mar à noite, fascinadas pela impossibilidade de distinguir água e horizonte, cheias de atração por essa matéria escura que tudo preenche e forma. Ontem olhei uma fera nos olhos e me camuflei no seu silêncio analfabeto feito de perigosa compreensão. Ali me desnudei e me escondi. Vi sorrirem os que seguem pela contramão, vi derrubarem o monumento para um general e plantarem uma horta no lugar. Vi quebrarem as fachadas só para mostrá-las frágeis. Vi que a revolução não será refrigerada, não será civilizada, não será letrada. A revolução é a terra, são nossos corpos sob o sol violento dançando para aplacar e atiçar o mistério, somos nós mais vivos do que nunca. Seguimos rumo ao que nada estanca, onde tudo flui impetuosamente na direção inesperada. Tão fundo que nem vejo, tão à flor da pele que mal permaneço em mim.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016



Uma e meia da manhã na avenida que liga a rocha afiada 
à imensa faixa de areia
há agora um veículo pesado
há um sobressalto que um pouco me ilumina
um pouco me arremessa
Há os que retornam para casa, os que buscam distração
os que festejam
os que vigiam já descansam, os que se espantam não tem paz
Há a chama azul sobre o fogão, o livro aberto
na página que revela um destino e oculta uma rota
A pequena gota que se precipita lenta, a memória de um verão
ápice suspenso
contornado por um inverno impiedoso, dias de chamado ao
vazio
A geometria de uma desocupação
A fantasia que retorna, a vida que apenas imagino espaçosa
consistente, calma. Há aqui agora um corpo combativo
um salto que se dá no escuro não por falta de coisa que ilumine
mas porque só no escuro que existe
A cidade estremece
embaixo de tudo que tenta recobrir o seu mistério
lhe fazer plana
A cidade sempre estremece
Desmorona e se refaz
como aquilo que liga a rocha afiada ao mar imenso
como o que leva o verão antigo a esse instante
como nossas mãos atadas
como isso que não ouso nomear e que me mantém desperta

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Foto: Felipe Vernizzi 


é na próxima esquina que encontro: cintilância, punhal, embarcação. mãos que não pedem nem repelem, a impossibilidade de olhar a olho nu. retorno aos objetos sobre a mesa: chave, faca cega, a pequena lamparina. o centro do quarto onde orbitam os insetos, onde não sei se perco o que sustenta, se ganho um outro eixo. começo a forjar uma passagem, primeiro as pernas contra o chão depois os braços na direção mais improvável. onde passa a linha do equador, nos meridianos impiedosos. onde há um vulcão que adormece se cantamos. onde há os bichos antigos, os que ameaçam, os que se ocultam. onde há a terra quando ondula, quando cede, quando se estende sem esmorecer. onde não há nem sinal do que ainda há pouco ordenava o ritmo e a continuidade do céu e da dança de todos os astros. onde há a pista de um outro encontro: fulgor, ternura, estilhaço. desde agora, antes de dobrar a rua, antes de abandonar o centro do quarto, a mesa, antes de poder te discernir. sigo o que é escasso, o que não se fixa, aquilo que antes assombrava e agora nomeia, onde o maciço de um passado bruto se abandona em fendas. onde a imprecisão vira uma velocidade nunca usada, onde te deixo, onde terra devastada vira campo de pouso e decolagem.

quarta-feira, 18 de maio de 2016





“Voei pra
cima: é agora, coração, no carro em fogo pelos ares, sem uma
graça atravessando o estado de São Paulo, de madrugada, por
você, e furiosa: é agora, nesta contramão.”  (Ana C.)

céu nenhum estável. sobre nós, essa ameaça de queda ou de brasa. era preciso esperar a hora mais quieta da noite para enxergar o dia com os olhos secos. experimentar uma distância calculada com temor, um deles sobre o sofá da sala, o outro vagando pelos corredores, o terceiro ia e vinha pelas escadas de incêndio. eu diante da janela que dava pra avenida que era o início das nossas fugas e o epicentro de um tremor que atingiria a todos nós. como quando tateava os tremores do teu peito no alto do largo das neves para então descermos a ladeira sem freios. quando um de nós empreendia um improvável gesto de ternura no centro da paisagem mais brutal.  como quando me vi tão irremediavelmente só andando pelo centro, pegando o trem, indo para a sala de embarque. como naquele dia em que falei sobre as pequenas rachaduras que ameaçavam as paredes e a disposição dos móveis adquiriam o tamanho da tua ausência, a distância entre a mesa e a cadeira, o lençol reto sobre a cama.  voltar para casa era um pouco como cair. as rachaduras aumentavam e podia-se sentir que as vigas cediam, que o chão já não era firme, mas por algum motivo fingíamos que nada disso era a véspera de um colapso definidor. escancarávamos as janelas nas noites de chuva, eu com os olhos fixos na avenida úmida, planejando o momento exato de partir. dançávamos rente ao que ameaçava, nessa prolongada queda que nos amparou a todos durante os meses que atrasaram a nossa ida. andavam na beira da praia, pelas brechas de uma mata, num deserto, pela avenida brasil. entendiam-se no que dizia respeito à formulação dos caminhos e  à sobrevivência ao longo do dia. entravam juntos nas vias que encurtariam caminhos, pediam caronas, provocavam os desvios necessários para alongar o tempo, saqueavam quando preciso, jejuavam também. um deles se protegia na ideia de que eventualmente teriam que tomar estradas opostas, não sabiam quem produzia o silêncio, quem pacientemente o escutava. depois as tempestades, a janela imensa na beira da sala, o sono partilhado, alguns encontros durante a madrugada, como quando tocavam as mãos por baixo dos lençóis, ou abriam os olhos ao mesmo tempo para tornarem a adormecer. houve o alegre despertar simultâneo, mas muito mais a insônia solitária ao lado de um corpo que dorme. agora olho para baixo e vejo um condensado de tons cinza me separando de uma cidade anônima. talvez eu sobrevoe alguma paisagem cujo impecável silêncio me lembraria de você, talvez passe por cima de alguma vida selvagem da qual nada sei, talvez passe pela fagulha de um evento que, algum dia, me levará a algum destino irreparável. meus pés bem firmes sobre um chão que corre e corta a densidade do ar, nem origem nem destino, aqui onde começo.