terça-feira, 18 de agosto de 2015


9


Espécie análoga alguma, nenhuma medida em paridade. Não sei se sou pequena ou extensa,  se ruidosa ou quieta, se opaca ou reluzente. Só o embate com a dessemelhança. Perco o conhecimento pelas comparações. Recolho algumas pistas, mas custo a discernir o que é vestígio do que acabar de nascer.  Se me aproximo, é pelo tropeço, pelo deslize, pelo fôlego alterado em meio à placidez. Atingem-me sons que não decifro, serão de perigo ou  de escolta? O que posso conhecer é o resultado de cada impulso, desequilíbrio ou firmeza, deslocamento ou ápice de inercia. Há o indecoroso convite a nada reter e tudo tatear. Os contornos  ameaçam porque imensuráveis, mas também  guarnecem porque fieis às suas medidas singulares. O que trago comigo perde a consistência, é preciso encontrar nova munição. Alfabetizar-me em tons telúricos. Aprender a geometria dos mutualismos, a gramática das predações. Guardar, como  talismã, a lembrança de que nada é puro e sem sobras.  Forjar um novo conhecimento sobre mim mesma, perdendo a nostalgia das  semelhanças,  investindo nos efeitos de contato. E quando a hora da verdade for iminente, não fraquejar, depositar as armas no chão.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015


8

Alternadamente tombam e se erguem os andaimes. Daqui vejo o movimento desordenado. A água escoa rua afora, arremedos de pontes se estendem sobre os mananciais. O fluxo dos veículos se altera, assim como o dos passantes que disputam ferozmente os raros trechos ainda secos de chão. Quando a madeira se rompe o estalido é horroroso, faz-se um instante de silêncio antes do estardalhaço. E então os joelhos encharcados de água turva começam a se debater na corrida por uma elevação abruta ou suave, algo que os livre do nível do chão. Ela passa pelo epicentro do  desastre. Pisa firme no chão inundado, ajuda a recriar o maremoto, altera o fluxo da devastação. Passa rente  a um corpo que arde sob uma camada grossa e o outro que procura um rumor de frio.  Anda entre os corpos que se desejam ou se repelem, encostando uns nos outros, pedindo desculpas, trocando olhares famintos, apressados ou sonolentos. Ela é feita da mesma matéria dessa água que subitamente se rebela contra os caminhos de ferro e aço. Na linha imaginária traçada entre os corpos, uma mão por vezes rompe a  barreira. Um corpo frio se queima com um toque quente, outro endurece rente a uma pele estranhamente familiar. Os sonhos revestindo as pálpebras, os tremores olhos afora, tudo em confusa e ruidosa navegação. Quem os guia? A ideia da manhã que chegará avara de sentido, a tarde imersa na matéria de oceano, lágrima, benção, soro. Desejos calados em bocas que ardem, dissolvidos em tédio, sobrevoos, lampejos de muda compreensão. Passou com a rapidez e o modo de um desastre. Súbito fluxo que emerge, o cultivo das inundações. Invenção e quebra de precárias pontes. 

domingo, 16 de agosto de 2015



7

Retorno à estação. Quando não a encontro – nunca a encontro – coloco outra em seu lugar. A sucessora, rapidamente, já não difere em nada da original. Porque essa imagem exata, variável em tudo menos nisso, me faz ver a dimensão dos danos. De como era quando eu não estava lá ou é prova irrevogável de que, em verdade, nunca estive. Os trilhos em desuso, erva daninha sobre o ferro ocre, placas indicando destinos esquecidos. Poeira sobre os bancos de madeira densa, o trabalho silencioso dos insetos ruindo tudo que provisoriamente se sustém. Às vezes acordo de madrugada só para visitá-la mais uma vez. A prova. Passo os dias alternando entre visitas à antiga estação e forjando listas de urgências. Segunda:  aparar o mato. Terça: trocar as fechaduras. Quarta: dar telefonemas.  Deixar tudo sob um controle provisório enquanto, no íntimo, estremece-me a beleza das arestas. Quinta: verificar vazamentos. Sexta: perder as chaves e pegar no sono do lado de fora. Nunca compreendias. Falavas de encaixes, da importância das ondulações. Falavas mais ainda dos banhos de rio, pular ou passar por baixo das cercas, essas águas vindas de altitudes, de poços profundos ou de geleiras que nunca vi. Eu te dizia dos cumes, dos pontos de irremediável variação: vésperas, esquinas, agulhas. Investíamos em imprecisas direções. Eu me entregava à fúria das ruas, empilhamentos e terrenos baldios, rumores dos êxodos e a quietude das multidões. Tu fazias pequenas caminhadas à beira-mar. Voltavas sempre recendendo à maresia, à vida misteriosa e frágil. Eu mantinha as gavetas lacradas, costurava botões extras nas extremidades das fendas, estendia o comprimento dos tecidos, cortinas, saias,  lençóis. Um pudor todo forjado no medo de perder a sensação do obscuro. Solos lunares, maquinarias movidas a vento, radares sensíveis aos tremores terra, o que te fazia querer voltar. Mas no dia certo colocarei na minha lista a tarefa de esquecê-lo. Sabotarei motores, inverterei certezas, revelarei imprecisões. Compreenderei que mais se preserva quanto mais se ignora. Mistério que faz coincidir o porto e a tormenta. Perigo que ampara, ameaça de toda mansidão.  

sábado, 15 de agosto de 2015



 6

Perceber com as extremidades do corpo o volteio das paredes. Tatear vestígios de antigas fendas, notar a massa revestindo cavidades com imperfeito acabamento,  descobrir as cicatrizes da improvável pele. Aproximar as têmporas do concreto, investigar os fluxos de água. Perceber o esqueleto úmido da casa, descobri-lo, a um só tempo, coluna e correnteza. Era necessária muita escuta para notar a água que sobe e desce pelos andares, os passos de pés descalços e dos calçados, os rumores não humanos, as portas fechadas com raiva ou com pesar. Com o passar dos dias já era possível divisar o escoamento insondável do gás indo de uma chama a outra, aquecendo a água para banhos precisos ou dispendiosos.  Os ossos de quem dorme no quarto ao lado, rangendo a cada insônia,  no corpo a corpo com a vigília.  Distinguia as frequências da vida retilínea e oca das de vida ondulante e espessa, mas não separava os tremores de cimento e vidro daqueles dos corpos e suas precipitações. Não foi imediatamente que pressenti tua chegada. Notei antes o tremor de um fluxo não constante, de peso variável e aproximação intermitente. Suspender os caminhos de ar, altear o fôlego dos espaços, provocar súbitas palpitações.  Sentir então, com as extremidades do corpo, os volteios da tua pele, as antigas fendas revestidas de massa imperfeita, tuas úmidas sustentações. Confundir tua vida com a vida das paredes, dos corpos anônimos e do meu próprio. Intuir uma forma de permanência fundada nos convites à ruína, perceber o fluxo como súbita demora, marchar em contratempo.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015


5

No primeiro quadro vejo as tuas costas. Você segura um espelhinho onde são refletidos teu queixo e o osso saliente do teu ombro. Minutos antes havia dito: amanhã eu parto. Depois saiu andando sozinha e voltou segurando um volume entre os dedos. Era um ninho. Depositou o emaranhado de gravetos e penugem nos joelhos e ficou encarando o céu. Talvez brincasse de adivinhar o pássaro cujo ninho havia coletado. Difícil distinguir em ti, como em toda a natureza, o que é irrefletido acaso ou impiedosa violência.

No segundo quadro, apenas tuas mãos pousadas em teu rosto. A luz coada pelas cortinas rotas, imagino se por baixo dos dedos teria os olhos abertos ou não.  Naqueles dias já falava em fugir, andava pela casa segurando um livro de capa azul  lendo em voz alta o que considerava aviltante.  Era a história de um homem assassinado que voltava para assombrar todos os culpados:  você acreditava em  fantasmas, mas nunca, até aquele ponto, havia acreditado em culpados.  

No terceiro quadro vejo teu corpo submerso. As pernas rígidas, muito unidas. As mãos, por outro lado, soltas, junto ao peito apenas por um triz. As pequenas dobras do baixo ventre são obscurecidas pela água turva, mas eu lembro de cabeça e sei que são três. Os azulejos não muito limpos, a torneira de plástico imitando o que poderia ser um besouro de cristal. São suaves os contornos do que está imerso na água ou coberto de vapor, indefinível a calma ou o tremor daquela hora, mas teu olhar resiste definitivo feito um mapa, os trilhos de um comboio, o casco de um navio rasgando os primeiros metros de mar.


quinta-feira, 13 de agosto de 2015



4

trajetos obliterados, repetida inconclusão. percebo que o ralo já não dá vazão à água, as portas pendem, mas não me desespero. talvez alguma devoção, o apetite obscuro pelo colapso, memórias irreveláveis que carrego como tesouro. o toque gelado das estátuas, os dias de rompimento entre os dias paz,  fugas noturnas pela escada de incêndio. calamidades da boca pra dentro. esboço um autorretrato: AB+, brasileira, leão, concilio contrários como quem adestra animais. dragão no chinês. não perco de vista a possibilidade do ataque. regida por astros de rápida rotação, volto sempre à mesma e antiga pergunta. faço um esconderijo em cada gesto revelador, prefiro os percursos por terra, mas não abro mão da magia. eróticos são os desvios rente ao ponto de chegada. nudez é laboriosa invenção. minto sem pesar, menos quando nego esmolas ou escrevo, que é quando a verdade se mostra ineficaz. encurto a vida das plantas, mas acho que tenho jeito para acalmar crianças. preciso exaltar as contingências para acreditar nos golpes de destino. no mais, a repetição daquilo que nos aparta e nos mantém. 

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

o sonho do rei



3

em 1066 um rei acordou inquieto
havia sonhado com a sua passagem 
setecentos anos depois houve quem calculasse a sua rota
um astrônomo amador o observou em dezembro de 1758
chineses já o mencionavam desde 239 a.C.
especialmente antes de dormir
depois do amor ou durante o chá
quando o rei acordou mandou fazer uma tapeçaria
onde vários homens apontam incrédulos para o céu
talvez nunca tenha imaginado que o período de sua órbita é de setenta e seis anos
mais ou menos o tempo que viveu?
se inquietaria ao saber que sua distância em relação à Terra
é eternamente variável?
em 1986 passou muito distante
em 2061 passará novamente, não se sabe o quão perto
já em 2134 é estimada uma abruta e temorosa aproximação
o rei não sonhou com sua queda, mas com sua passagem iminente
não o chamou de cometa, e sim de estrela fugidia
talvez tenha sido seduzido por
sua promessa de carícia luminosa ou de apática destruição
sua indiferença
seu calculado plano de ataque
não é isso afinal o que se ama
os súbitos fins
as sobrevivências improváveis
em 1886 uma nave passou a 596 km de seu núcleo
queriam saber como era seu coração
uma grande bola de gelo sujo ou um estranho conjunto corpos
distintos executando a mesma órbita?
o que não se esperava era seu núcleo ser, em verdade, informe e morno
dependente do calor da superfície pedregosa 
será por isso que se faz pedidos a estrelas fugidias?
esses que anunciam suas brutas existências com sutilíssimos sinais
terão os favores da sorte os que transladam imprevisíveis rotas
com o coração em plena metamorfose, intempestivo, fugidio
a pele, generosa indócil, disponível a incêndios