havia gargalhadas, tilintares, um bocejo
havia Lucio despedindo-se dos entes
ia para longe, nunca mais se soube dele
a pele morena de Lucio contra aquela faca cega
era de morrer de amor
mas havia um corpo exposto sobre a mesa
e milhares de olhos nadando sobre ele
havia a marca de um molar
rente ao meu pescoço
eu já não entendia o que era sono
e o que era aquele efeito de subitamente se ver de fora
era eu de pé, aquela mulher loira, o contador
e, como se não soubéssemos que iria amanhecer
violentamente,
nos apalpávamos com uma alegria furiosa
quem propôs a roleta russa não fui eu
foi alguém com os pulsos mais delgados
naquela hora eu tive tanto medo que achei que ia quebrar em dois
mas não foi pior que aquela noite de verão
não foi pior que desmoronar em pleno ataque
que perder o equilíbrio rente àqueles olhos
que tremer e apertar o gatilho contra o peito errado
aquela hora não foi pior
que queimar a língua
que perder o sono numa madrugada pesada de tanto silêncio
que estar viva numa madrugada toda feita de silêncio
não foi pior
porque logo houve algo como uma dança
uma mão que agarrou meus braços
um vermelho tingindo os meus pés
a hora de partir
havia a lembrança de uma ternura extrema
de um sufoco tão total
havia eu escapando na hora exata
fugindo pelos corredores
descendo por um elevador
ganhando um texto pronto em plena madrugada
um crime sem culpados em plena madrugada
eu imaginando se Lucio teria se arrepiado
com a minha pele
antes de partir
em plena madrugada
agora havia apenas meu peito ofegante
o pulso aberto
a sensação que quase morte
é coisa de carne viva
sexta-feira, 16 de maio de 2014
segunda-feira, 12 de maio de 2014
A dança ou A anatomia dos Anjos
para Holbein Menezes
Há uma outra versão que diz que quando ele chega ao
céu os anjos dançam. Incontáveis querubins andróginos o saúdam com um baile de
samba de gafieira. Entre zig-zags, malandragens, inversões, travadas, abraços e
enroscos, os anjos riem. Ele fica de canto, só olhando, os pequenos pés
afundando as nuvens fofas. De vez em quando um querubim tropeça e é a maior
troça. Aos anjos só é permitido fazer festa quando uma alma alegre é acolhida.
Suas grandes asas atrapalham um pouco a movimentação, mas também criam uma
impensada forma de erotismo. As penas roçam os olhos angelicais, acariciam seus
braços, por vezes se prendem por um instante entre suas pernas. Quando dançam,
os anjos elaboram seu complicadíssimo sexo. Feito de purezas dilatadas e
perversas conjunturas de cócegas e ânsias. Quando acontece esse baile é possível que na
terra chova, ou que ventanias exageradas varram as ruas e os campos nus. O
tremor dos anjos bailarinos afeta a terra sobremaneira, por isso é sabido no céu que alegria é a força mais
perigosa que há.
A anatomia dos anjos é uma coisa interessante. Uma
espécie de maquinaria, um labirinto de carne e voo. Quando ele chegou ao baile, se impressionou primeiro foi com aqueles corpos. Diferente do que se pensa, os
anjos não são menos carnais que os humanos. São apenas corpos densos que o
Misterioso dotou com longas asas. Pura humanidade alada. Não são perfeitamente
belos e santos, talvez um pouco pálidos e entediados, isso sim. Uma anja que já
tinha cansado de dança chegou perto dele e lhe deu boas-vindas:
- O céu dança sua vida. Esteja em casa.
Olhou bem para a anja e viu que parecia uma mulher
do norte, uma cabocla, mistura de negra com índia, de lábios grossos, cabelo
escuro e olhos puxadinhos. Suas asas não eram perfeitamente brancas, tendiam
mais para um ocre sutil. Outros anjos tinham as asas cor de chumbo; essas, em
sua opinião, as mais garbosas. A
anja-cabocla lhe olhava com certo interesse amedrontado, um ar de dissimulação.
Quando conseguiu falar, perguntou:
- Mas o que é isso, afinal?
- Esse é o céu em festa. Sempre que sobe até nós
uma alma verdadeiramente alegre, temos permissão do Misterioso para dançarmos e
ouvirmos músicas populares. Lá pelo quinto dia, também poderemos beber vinho.
Sim, porque a festa dura vinte dias e vinte noites terrestres. O Misterioso
fica meio contrariado, porque diz que o vinho bebido assim para a festa, e não
na sagrada comunhão, é homenagem aos deuses antigos, é Bacanal, entende? Mas
trato é trato. Nós sustentamos as arquiteturas celestes, vigiamos o obscuro e a
claridade do humano, levamos mensagens para o mundo inferior, passamos dias
meditando diante de claridades, assistimos ao balé do Espírito que insiste em
tremular sobre as águas por um velho hábito. Em troca de tudo, podemos fazer
festas quando uma alma verdadeiramente alegre vem até nós. É a Lei.
Ele estava estarrecido. Um pouco com aquela
história toda, com aqueles tratos, com o fato de ser ele a alma alegre. Mas, sobretudo,
porque a anja-cabocla era uma perdição. Como podia uma anja ser assim tão
sensual? Os lábios carnudos, o sotaque do norte, um hálito de cajá. Havia
muitas coisas que, aquela altura, desejava saber, uma delas era se lhe seria
permitido flertar com aquela anja, ou mesmo chegar a toca-la. Ali, era preciso
reaprender tudo, até a arte do cortejar.
- Escuta, como é o teu nome ?
- É Lidiane.
- Ô Lidiane, não tá parecendo que essa festa é para
mim não. Eu não estou entendendo nada, será que alguém pode me explicar alguma
coisa ?
- Você sabe dançar ?
Não sabia. Mas notou que ali, sobre as nuvens, seus
pés adquiriam uma sabedoria própria. A gafieira foi substituída por um Fox Trot, percebeu que conseguia dar
incríveis giros, viradas e twists. Dançou por muitas horas, parando apenas
quando passava um avião muito perto da nuvem onde estava. Os anjos estavam
acostumados, mas ele levava um enorme susto cada vez que isso acontecia. Quando
anoiteceu, começaram a dançar um forró arrasta-pé e os ânimos se exaltaram.
Sentiu que era hora de buscar alguma explicação. Notou que um anjo bastante andrógino observava tudo de
canto. Magro, negro, alto, cabelos cheios, começando a virar um black
power e traços bastante delicados,
deixando em dúvida o gênero da criatura em questão. Decidiu puxar assunto.
- Oi, você
também não dança forró?
- Na verdade
danço muito bem, eu queria mesmo era falar com você.
Tinha a voz aguda e aveludada, mas ainda poderia
apostar que era um rapaz. Sua pele era belíssima e reluzia sob a noite
estrelada. Tinha olhos que cintilavam, como quem olha para algo perigoso. Sua
asas eram alvas, usava uma camiseta preta de algodão e calças justas também
pretas. Seus sapatos pareciam pantufas, só que mais modernas. O anjo continuou:
- Eu vi você dançando. É de fato uma alma alegre.
Apenas os alegres conseguem dançar em meio à incompreensão.
- Mas eu não gosto de não entender. Você pode me
explicar como é o céu? Por que eu estou aqui e como será minha estadia?
- Olhe, aos anjos é vedada a possibilidade de dizer
verdades. Segundo as Misteriosas Leis, dizer verdades é um dos pecados
capitais, nos arremessaria direto ao
submundo, para que ardêssemos, corpo e asa, na caldeira dos Contadores de Verdade.
- Mas então, terei que ficar aqui sem nada saber?
- O Misterioso, porém, tem misericórdia. Deixa que
nos comuniquemos com o que há de mais puro no ser: o corpo.
Por essa ele não esperava. Não parecia do caráter
de Deus considerar o corpo superior às verdades metafísicas, aquilo o
surpreendia verdadeiramente. Mas ainda não entendia como faria para obter
qualquer informação. Estava cansado, com fome, queria um pouco de privacidade
e, além de tudo, começava a sentir os sinais de uma enxaqueca terrível.
- Mas, então, como você se comunica pelo corpo?
- Você pode tocar em mim, cada parte do meu corpo,
e do seu também, tem um pensamento. Está nos Secretos Escritos que o ser humano
se engana muito acreditando ser a cabeça o centro da razão. A razão é elétrica,
sanguínea, corre na pele. Basta que você toque na parte do meu corpo que quiser
que verá o que meu corpo pensa e sabe.
Aquilo mais parecia roteiro de pornochanchada. Um
argumento metafísico, até sublime, mas que só pode funcionar com algum tipo de
sacanagem. Sentia que aqueles anjos estavam tirando uma com a cara dele. Mas o
anjo estendeu sua bela mão e, sem pensar muito, ele o tocou. Foi como se seu corpo fosse tragado para
dentro de uma esfera luminosa. Primeiro só conseguia enxergar a luz, aos poucos
sua visão foi voltando ao normal. Quando pode olhar, viu que estava em outra
nuvem, esta isolada e silenciosa. Olhava para baixo e, estranhamente, podia ver
tanto à distância, como de perto, dependendo apenas do seu desejo de ver. De
repente, soube.
Entendeu a fragilidade dos mistérios além-vida. Como se levasse
um choque, ele recebeu um lampejo revelador: os anjos são aquilo que querem ser.
Em verdade, os anjos eram apenas homens e mulheres que acreditavam, em vida,
que quando morressem virariam anjos. O Mistério, de fato, era a fé. Dependia da
criatividade de cada mente fervorosa o seu destino na Eternidade. Mas “fé”
ainda não era a palavra certa, mais do que crer, era preciso desejar. Os anjos
eram aqueles que desejavam sê-lo. Então
a Lei secreta que rege o universo era o desejo. Daí uma certa androginia na
maioria dos corpos angelicais, fruto desse desejo bruto que transborda o gênero
como é entendido na Terra. Os Anjos, acima de tudo, eram os que desejavam para muito
além do corpo. Queriam ser meio macho, meio fêmea. Queriam o dom impensado do
vôo. Queriam a carne em brasa toda suspensa em penas. Queriam ser a própria
medida do impossível.
Com outro choque, soube então porque não lhe coube
esse destino: nunca em vida havia desejado ser anjo após a morte, bem pelo
contrário, se sentia muito mais tentado a dar uma olhada no que se passada no
submundo, nas obscuras e fervorosas câmeras do Outro. Então, com a sensação de um súbito arremesso,
viu-se em uma nuvem muito alta, de onde já não podia saber mais nada da Terra.
Soube que estava muito perto do limite onde se pode chegar sem se queimar no
Sol. Soube que estava só. Ali, o esclarecimento que havia obtido lhe parecia
uma triste notícia. Se os homens viviam, após a morte, aquilo que em vida
desejavam viver, por que é que ele estava ali naquele céu banal repleto de
clichês? Nunquinha que em vida tinha desejado isso para si. Então, como se um
soco no estômago lhe tirasse o fôlego, veio-lhe a resposta: o texto.
Era de conhecimento do Misterioso, esse grande
amante das letras, que ele havia deixado por escrito um longa descrição de como
seria sua experiência no Além. Havia descrito, em um belo texto, longos
acontecimentos em um céu como aquele: feito de nuvens, anjos e a notícia de um
Deus ausente. Seus anjos eram burocratas falastrões que, por ora, apenas
dançavam. Estava tudo planejado para que, em seguida, tivesse a oportunidade de
viver o céu assim como ele havia desejado, a ponto de tê-lo criado por escrito.
Sentiu então o fervor da raiva subindo-lhe pelo corpo: eles não haviam
entendido nada!
Acontece que seu desejo não era pelo céu, mas pelo
texto! Seu texto, por sua vez, não era confissão de um desejo escuso, nem
atestado de nenhuma fé. O sentido do texto se fazia na escritura e só texto
poderia revelar o seu próprio mistério, quem o escreve pouco sabe sobre ele. O
escritor só sabe de uma coisa: do irresistível chamado da escrita. Seus temas,
seus argumentos, suas aporias nada mais são que vias por onde percorrer para frequentar o
texto. Esse sim, seu verdadeiro interesse.
Quando voltou à nuvem, o anjo estava com os olhos
arregalados pois havia compreendido que o Misterioso – pasmem – tinha cometido
um engano. Não era aquele, pois, o destino-desejo daquele homem. O anjo silenciosamente recolheu sua mão e pediu
que ele o seguisse. Andaram na direção de uma pequena torre de pedras que, até
então, não havia notado. Dentro dela, havia uma escada em formato caracol, que
descia rumo a uma escuridão indevassável. O anjo disse:
- É preciso corrigir um engano. Seu destino é
outro. Esse você encontrará quando descer por essas escadas.
Ele sentiu um novo
ânimo lhe afetar o corpo, mas também um certo medo. O que encontraria
ali? O anjo continuou:
- Aqui é o paraíso dos escritores: a biblioteca.
Nunca soube como é de fato, pois não é o meu. Olha, a verdade é que todos vamos
ao paraíso depois da vida. Não importa se o sujeito deseja o inferno e vai para
lá, pois em verdade aquele inferno é a sua delícia, seu ardor. Houve um erro,
digamos, de interpretação de texto. O
Misterioso, através dos meus olhos, deu-se conta disso agora quando você
acessou os Mistérios. Seu desejo não era o céu como escreveu, mas o próprio
escrever. E é por isso que você vai ser transferido. Mas saiba que você
conseguiu aquilo que talvez todos os escritores desejam: você confundiu a ordem
perfeita do Mistério. Agora descerá em direção aos Mistérios da Biblioteca. Boa
viagem.
Enquanto ia descendo as estreitas escadarias,
sentiu um fervor de orgulho animando o peito: conseguira, trapaceara o próprio
Deus. Sempre tinha tido admiração por João Grilo, esse astuto enganador, e
agora havia superado mesmo a mais brilhante de suas façanhas. E não sabia bem
como, só sabia que tinha sido assim. Antes de mergulhar no obscuro e encontrar
seu definitivo e correto Paraíso, pode ouvir a Misteriosa Gargalhada. Deus ria
de seu próprio engano. Quanto a ele, estava orgulhoso e animado, mas lamentara
uma única coisa: não poder mais dançar com Lidiane. Ô Anja deliciosa!
sábado, 15 de março de 2014
antes do tremor:
com um mover de dentes anuncio aquele vento perigoso que te escalda rosto seco, que te invade olho toda cava. prevejo aquele terremoto que te treme o ponto cego, treme e inunda a área surda. pra te salvar, deita aqui que te perturbo, que dou um golpe de pernas, um gole de bebida ardente e te deixo manso. pescaria nos lençóis: tua carne anzol, minha boca de peixe faminto e inconsequente; tua cara isca, meu olho fome. me pede um amor calmo que te cubro de café amargo, beijos em plena plataforma, promessas difíceis, traições sem nome, noites de coluna rente ao chão. me pede uma calma quente que palpito como uma enxaqueca diante do sol ao meio-dia, que explodo junto ao êxtase das horas curvas, que fico calma feito a louça na pia cheia. manhã tarde e noite pensando quando esse chão vai desabar, quando que vem o descanso da ira, a negação da fuga. te convenço a ficar te apresentando a anatomia da casa, o prazer do tédio, a embriaguez do medo.
tremor:
chega súbito. mas mansas são tua dores. desaba o corpo firme, escorre. o prazer pela dificuldade: tabuada do oito, saber não ser, preferir gozo ao nome, preferir o riso à honra, esquemas geométricos, idiomas mortos. teu ofício é trair os símbolos, as associações infalíveis, a linguagem e seus sentidos obscuros. com teu corpo quebras os sentidos insondáveis, rompes com as verticalidades, fundas um solo de terra úmida sobre cada metafísica. não te salvo porque tua salvação seria se perder. não te guardo, que teu berço é tudo que oscila. o olho do furacão, a pálpebra cansada ou jubilosa, a língua úmida sabotando as regras do idioma. olho pro teu rosto em pleno espanto, tudo em ti desaba e teu sorriso resta.
com um mover de dentes anuncio aquele vento perigoso que te escalda rosto seco, que te invade olho toda cava. prevejo aquele terremoto que te treme o ponto cego, treme e inunda a área surda. pra te salvar, deita aqui que te perturbo, que dou um golpe de pernas, um gole de bebida ardente e te deixo manso. pescaria nos lençóis: tua carne anzol, minha boca de peixe faminto e inconsequente; tua cara isca, meu olho fome. me pede um amor calmo que te cubro de café amargo, beijos em plena plataforma, promessas difíceis, traições sem nome, noites de coluna rente ao chão. me pede uma calma quente que palpito como uma enxaqueca diante do sol ao meio-dia, que explodo junto ao êxtase das horas curvas, que fico calma feito a louça na pia cheia. manhã tarde e noite pensando quando esse chão vai desabar, quando que vem o descanso da ira, a negação da fuga. te convenço a ficar te apresentando a anatomia da casa, o prazer do tédio, a embriaguez do medo.
tremor:
chega súbito. mas mansas são tua dores. desaba o corpo firme, escorre. o prazer pela dificuldade: tabuada do oito, saber não ser, preferir gozo ao nome, preferir o riso à honra, esquemas geométricos, idiomas mortos. teu ofício é trair os símbolos, as associações infalíveis, a linguagem e seus sentidos obscuros. com teu corpo quebras os sentidos insondáveis, rompes com as verticalidades, fundas um solo de terra úmida sobre cada metafísica. não te salvo porque tua salvação seria se perder. não te guardo, que teu berço é tudo que oscila. o olho do furacão, a pálpebra cansada ou jubilosa, a língua úmida sabotando as regras do idioma. olho pro teu rosto em pleno espanto, tudo em ti desaba e teu sorriso resta.
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
- Tua pele é sombra, poça d’água no escuro. Pressinto teu cabelo emaranhado. Que cultivas entre os fios? Sementes, filtros de amor, ossos de reis assassinados, uma pirâmide com a Esfinge dentro? Quais perguntas enroladas nesses nós? Com tua testa sustentas a noite, o riso dos homens tontos, a alegria de todo deslize. Rasga o dia com teus dentes. Guardas uma onça dentro da tua boca tensa, anunciam insurreições os teus quadris. No peito, um milhão de pernas correndo com a alegria da revolta. Se coloco o ouvido rente a ti, escuto o farfalhar de asas, o mar revolto, o rugir da terra, um grito de pavor. Agitam minhas pernas pensar nas tuas afundando a terra escura. Queima a minha boca pensar na tua garganta aberta para o dia ainda tão sem fim.
- Eu conheço o chão, o corpo das esquinas. Eu tateio as lajotas, investigo os buracos mais prosaicos, me ponho estático diante de um degrau. Sou um dos teus profetas? Um desses homens que pernoitam sob os tuneis cumprindo desígnios divinos, esses tão miraculosos que só poderiam ser realizados por um homem puro: um sem casa, sem família, sem o alfabeto grudado na pele. Um homem desses que conseguem ler os mandamentos no pelo de um cão sarnento e são vigiados pelo eterno dogma dos céus tediosos. Toco teu braço e teus ossos recuam, tua pele oscila um pouco acima, como se estivesse desgrudada do esqueleto. Vagueias? Conjuras? Que guardas no vão entre a pele e o osso?
- O olho do homem que me criou. Suas mãos ásperas de lobo manso. Seus dentes alvíssimos arranhados de bicarbonato. Sua pele espessa. Junto desse, contabilizo os dois olhos que tenho na cara e assim enxergo o mundo. Do pai herdei um olho no avesso da pele, da mãe os ossos que se escondem. A pele que avança é mesmo minha, um tipo de dança que inventei, é assim: fecho os olhos no quarto escuro ou no meio de uma avenida louca, coloco as mãos em forma de prece bem rígidas rente ao rosto. Dentro da boca, a língua dança. Todo o resto denuncia um corpo penitente, até meio santo. Tipo desses que meditam enquanto o querosene aguarda o fósforo riscar. Mas minha invenção é a língua bailarina. Avança e recua em direção ao céu da boca, as gengivas, ao escuro da garganta. Quando danço, minha pele alteia, ganha uma vida toda dela. Meus ossos repousam dentro de um corpo que não cessa de nascer.
- É aqui, cheguei. Estou em casa. Obrigada pela companhia.
- Calma, não larga ainda do meu braço. Eu te guiei com os olhos, agora me leva um pouco pela escuridão. Vou fechar as pálpebras e você me diz alguma coisa da cegueira enquanto me leva até a porta tua casa. Um dois três e já
- Fôlego nenhum bastava. Quando eu era criança, sempre queria ir mais além do corpo. Os músculos ardiam, mas as pernas tinham sede de correria, de pontapés. A visão já esmaecia e eu conhecia o mundo feito um boi nervoso, desses que soltam para correr na multidão. O corpo da única mulher que olhei sabe como era? Comprido, espesso, negro, brilhante, violento. Tinha umas cicatrizes no quadril. A prima que se despia nos banhos de cachoeira, que deixava frestas milagrosas nas portas dos banheiros, a prima que cruzava as pernas lentamente. Quando ceguei era já tinha um filho e esperava outro. Eu me embolando para dentro e ela colocando uns corpos no mundo fora. Cegar foi assim, minha filha, o mundo de relance, o corpo de uma mulher linda e depois só a notícia dos nascimentos e das mortes. Vê só, cegar não foi muito diferente de viver. A minha casa é aqui.
domingo, 2 de fevereiro de 2014
Senhora das vagas, ondula meus cabelos com a tua língua quente.
Me abraça com teus mil dedos de lâmina, dedos de peixe prateado que corta o escuro veloz. Senhora do meu assombro, dos naufrágios em silêncio, me toma pelos olhos, faz do meu peito um reino teu. Planta fundo em minha carne o aguilhão da correnteza. Implica um quinhão de força impiedosa nos meus atos mansos. Minha pele na tua, espelho d’água, me ensina no abraço a tarefa do que afunda e sustém. E no teu corpo crespo deixa que eu aprenda o equilíbrio. Navegar com a coragem insana dos que se sustentam no mover daquilo que não podem controlar. Senhora do mar, salga minha pele. O sal faz arder ferida aberta: essa é a tua benção, tua caridade. Senhora de todos os berços, vive em minha pele, sussurrando em meus ouvidos, para que eu não esqueça fácil, que onde o tesouro reluz é onde o ar acaba, e que no terreno movediço é onde o corpo aprende a se botar de pé.
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
Sobre a ferida, o sol.
Passou o feriado e eu fiquei pensando no São Sebastião.
Os santos e o inferno sempre
foram boas desculpas para os artistas mostrarem o êxtase da carne e o maléfico maravilhoso. Sebastião me
parece uma dessas figuras que personificam o gozo, além de ser um corpo idealmente belo, parecido com os homens criados pelo estatuário grego. Como se Adônis fosse
retomado pela cultura cristã, mas com um álibi que possibilita a exaltação da
sua beleza sobre-humana: a ferida. Estava lendo Espelho da
Tauromaquia do Michel Leiris e encontrei por lá essa descrição do belo:
“(...) beleza alguma seria
possível sem a intervenção de algo acidental (o infortúnio ou a contingência)
que arranque o belo de sua estagnação glacial, com o Um sem vida faz-se
Múltiplo concreto ao preço de uma degradação. (...) a beleza não se constituirá
pelo mero contato de elementos opostos, mas por seu antagonismo mesmo, pela
maneira ativa com que um irrompe no outro, deixando aí sua marca, como ferida e
depredação. Não será belo senão aquilo que sugere a existência de uma ordem
ideal, supraterrestre, harmoniosa, lógica, mas que ao mesmo tempo possui – como
tara de um pecado original – a gota de veneno, a ponta de incoerência, o grão
de areia que perturba o sistema. Ou então, inversamente, será bela toda borra,
todo veneno que uma ínfima gota ideal venha iluminar.”
Interessante pensar que São
Sebastião sincretiza com o orixá das matas Oxóssi na nossa Umbanda. Se Sebastião
é a caça, Oxóssi é caçador. O artista, como o que lida com as potências dessa beleza venenosa, é aquele que fisga por ter sido, antes ele, fisgado. Também ele empunha a flecha e tem, a um só
tempo, seu o dorso transpassado. É picada e mata.
Essa figura que personaliza o
belo masculino remete também a Apolo, o deus das formas, das medidas e do sol. Sobretudo nesses dias de janeiro, é difícil pensar que o sol possa ser entendido como isso que garante a ordem. As criaturas dos trópicos vivem sob o signo da cintilância, tem os olhos maculados pelo brilho e a
pele fustigada pelo sol.
Nos trópicos, Apolo se revela
dionisíaco. Sebastião se revela Oxóssi. O ideal - alhures intangível - nos tange com
raio e flecha, porque transborda de si mesmo, excede.
Aqui são os deuses que nos oferecem a sua
outra face. E a beleza é uma musa envenenada pela luz.
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
infância à tarde
(fotografia: Maurizio Cattelan e Pierpaolo Ferrari)
é antigo em meu inferno o pavor dos paraísos
arranhava a garganta no olho do dia. lavava os azulejos com a voz. me sustentava sobre coisas frágeis, fazia malabarismo no fogão. o medo era alguma coisa que se movia entre meus dedos. mariposas, astronautas, mapas ilegíveis, cartas amarelas. o calor me acariciava entre as coxas. no sofá estudava distensões, orgasmos, cambalhotas. notava as feições do acaso como a de um tigre numa jaula. sonhava que cometia crimes e escondia as evidências dentro da barriga. sonhava com aviões, pontes e cadeiras com os pés altos. nunca cabia dentro o que eu queria ocultar do mundo fora. ria nervosa sozinha diante do espelho. repetia um nome em voz alta demoradas vezes como uma oração. praticava apneia entre os lençóis. passava tardes pesquisando mistérios, mascando chiclete, brincando de sustentar copos de vidro na boca sem usar as mãos. revestia pernas e braços de hematomas, esbarrava nas quinas e chorava com a intensidade de quem nasce. achava que podia ser a Eleanor da Aquitânia, fazia do meu rosto um nicho, um altar. depois me dissolvia nas horas quentes. tomava leite condensado direto da lata. queria fechar todas as portas, todas as frestas, queria descer ladeiras íngremes, sentir a barriga gelar. o abraço que machucava o corpo todo, o beijo nos olhos para tirar o cisco. os dias sem familiaridade com tempo. literatura na piscina que não dava pé. tremores na sombra. o formigamento na nuca. inventava que odiava praia. me vestia feito uma ninfa com acne, transformava um lençol velho numa roupa cerimonial. tentava aprender a dirigir num condomínio fechado. pendurava folhas de revistas pelo quarto. inventava meu corpo, a direção dos cabelos, a cadência do passo. o paladar bruto, o tato procurando peles impensadas, os olhos faiscando mais que o sol.
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