terça-feira, 1 de outubro de 2013

é o pulso de um coração de aço 
força solene
contra as horas de mudez 

é tempo de torpores
o horizonte escuro feito a mágoa
e tudo que palpita nesse ritmo infalível

meu pensamento se debate em apneias 
meço meu corpo com simetrias e fulgores
minha imaginação dorme, mansa, numa cama fria

solidão ruidosa
e o ar da sala permanece
arranhando de espasmos

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Limpeza





Sou uma mulher dissolvida pelo ardor da minha bílis e pela água sanitária. É limpando a casa que me dou conta como é bonita a coragem para investigar o obscuro. Arredo sofás, invado frestas, vasculho antigas gavetas. O resultado é bom, mas o processo doi. Nada mais aviltante que encontrar uma barata ressacada atrás da geladeira, ou um emaranhado de estranhas teias no fundo de um móvel.  Ao menos,  o ralo, que é o coração da casa,  está limpo. Manter a alma em estado puro é mantê-la bruta, por isso o obstinado trabalho na casa, as faxinas. É uma ternura que recorre, uma insuspeita inquietude. É como um exorcismo. Já que nunca tive a honra de ser exorcizada no altar de Deus, o que seria uma glória, e contento-me com discretos aleluias inclinados na direção de Afonso, para quem cubro meu cabelo com mantilhas e a quem endereço meus suspiros durante o Magnificat.  Na casa de Deus celebro a silenciosa sedução, na minha casa solto os demônios ajoelhada sobre um chão ensaboado. Fico imaginando uma madame perversa me fazendo ameaças: limpe esse tapete de banheiro a ponto de poder dormir com ele em sua própria cama. Tenho calafrios. Não posso com coisa suja na cama. Menos homens, esses eu recebo bem. Estremeço com a fome do mendigo endereçada ao meu corpo, mas isso é segredo.  Assim como quando deixo a cozinha toda imunda só para ter um indizível júbilo em limpa-la. É a comunhão com as partes baixas da existência, comer do pão místico da imundice, digerir o indigesto. Peço aos céus apenas que eu não fique metida demais, com ares de santa, só por ter encontrado essa via para a salvação. Mulher com jeito de santa é um saco, eu gosto de ter um ar meio tapado, como quem estivesse sempre um pouco sem ar, ofegando. Chegando em casa, quando não tem ninguém, me permito respirar mais fundo, franzir o cenho, ler alguma metafísica.  Meu plano para conquistar Afonso é que um dia ele venha aqui em casa e veja como sou caprichosa, como transformo qualquer craca pesada em cristal reluzente. Quando ele elogiar meu capricho, eu me declaro: sabe, Afonso, a alma de um homem é  um canto escuro. Vês como sei lidar com o pó e a gordura? Pois não sabes o que posso fazer de ti. Eu sou uma mulher humilde, tapada, mas tenho cuidados que sobram. Será que não queres desfrutar do meu asseio e ser uma só carne, na direção da eternidade, em mim? Eu aposto que ele topa, quem não?   

domingo, 8 de setembro de 2013

Ana

Lembrava da pele de Ana e enganava os dedos, contornando a espessura do vidro, as ranhuras do estofado. Terminava o primeiro cigarro do dia, falhando na promessa de parar e sucumbindo ao pensamento nela de quem eu fugia com tanta obstinação. Encarava o rosto de Ana enquanto olhava as ondulações que ladeavam meu caminho até Minas Gerais. Ana e seus olhos-pergunta, sua pele sem traço de perfume qualquer, pele toda corpo. Era preciso que Ana ficasse para trás e eu seguisse adiante. Ela e o apartamento em Botafogo, a São Clemente inundando, a sinfonia de buzinas e Ana lamentando a morte de alguma de suas plantas, a reação de algum aluno, o desfecho de um filme. Tudo doía nela, menos eu.

 Lembro daquela tarde em que chovia, Ana se lamentava e eu coloquei minhas mãos pesadas no seu ombro abaixando seu vestido até a cintura sem dizer nada. Não era desejo propriamente dito, era vontade de derrubar, desafiar aquele corpo. Era vontade que Ana se doesse em mim. Lembro da respiração pesada, quase um lamento. O corpo que cedeu ao chão. Seus olhos opaco e os membros pesando feito pedra. A São Clemente naufragava e eu ia junto. Na tentativa de ter aquela mulher, perdia tudo.

Ela dormia um sono pesado quando eu ia até a janela fumar um cigarro. E tinha lembrança daquela primeira vez quando eu a vi sambando desajeitada, aquela dança que prendeu meus olhos por ser estranha e divertida. Encontrei com ela na saída do banheiro. O rosto vermelho, o cabelo suado grudando no pescoço, o vestido fino de malha preta marcando um corpo magro e pequeno. Não foi exatamente fascínio, foi um desejo simples e imediato de estar ao lado dela. Eu disse que era bonito ver ela dançar, ela abriu um sorriso largo e branco  e me convidou para uma cachaça no balcão. 

Nessa primeira noite o corpo de Ana era a possibilidade e tudo, na noite do naufrágio era uma ilha  e hoje, a direção oposta do caminho tortuoso por onde eu seguia.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Enteléquia

Os grandes óculos de grau, sem eles, a nudez. Engraçado  me sentir carnal por estar com o rosto despido, como se estivesse cometendo o maior dos impudores. Míope e vulgar, poucas combinações são mais providenciais. Tomada dessa estranha luxúria eu saía correndo, desviando da chuva, demorando um segundo embaixo das marquises tomando fôlego para outro mergulho na rua-correnteza. Um vira-lata começou a correr atrás de mim, abanando o rabo molhado.  Importava chegar a tempo para vê-lo e o eclipse nos seus olhos. A cada mil anos o sol se escondia atrás dos olhos dele e ele sentia minha falta, por coincidência, nesse exato dia ele estava a dois quarteirões daqui. Se cansaria de me esperar e voltaria de táxi para a Ilha do Governador? Não, espera, deixa eu sentir de novo o toque das tuas mãos, uma sobre a outra, enquanto eu coloco a minha, clandestina, entre elas. Não vai embora sem soprar teu silêncio de montanha antiga em mim. Ele dança com a leveza da chuva que me atrasa e persiste, em cada lugar por onde passou, como a memória de uma cidade em ruínas. Eu era Pompeia coberta de pó e lava depois da sua passagem. Fazia apenas um mês que eu o conhecia, mas o tempo já se desdobrava confuso, entre atrasos e aléns. Eu corria, mais feliz que o vira-lata que tinha acabado de me adotar. Estremecia de frio, de alegria, de saudade e de uma insuflada liberdade. Calma, só mais cinco minutos e eu já to aí, molhada como o cãozinho que me segue, só que menos altiva. Todo vira-lata é altivo, porque é rei da sua vadiagem. E eu só sou uma mulher míope molhada correndo. E nada parecia mais honesto que correr na chuva atrás dele que eu conhecia como se conhece o escuro, que é sempre o mesmo, e que compactua com todos os espantos. Ontem li no Livro de Hidelgarda uma menção à noção aristotélica do ser-em-ato, a enteléquia, ser-sendo, ser-correndo-na-chuva. Aristotélica, nadadora, vadia e ofegante, assim cheguei até você.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Tempo de bala



Um escuro que escapa pelos dedos. Dentro de mim, esse rumor, inquietude pelas frestas, o ar suspenso em frágeis fundações. Leio o livro de Hildegarda, um apócrifo que só eu conheço e tenho em mãos. Ela fala sobre o amor dos homens, sobre o abraço à terra e essa náusea que nos acompanha diante do obscuro de nós mesmos. Faz sete dias que me vejo sozinha em casa. Mateus saiu e não mandou recado qualquer. Não sinto desespero ou revolta, mas experimento uma sensação de vazio que desconhecia. Mateus já foi o nome dos meus dias e o preenchimento dos sulcos de cada manhã. Agora o céu é branco, o chão da casa acumula fina camada de pó, as portas se debatem junto a mim. Tomo banhos demorados, deixo a pele enrugar, experimento os calores e os gelados de cada superfície com meu corpo nu. Estendida sobre a mesa de jantar, olhando o teto como quem se deixaria tragar por uma noite iluminada. Faz sete dias que a casa parece ter uma vida própria, toda vez que busco organizá-la algum caos se revela em formação. Tempestades domésticas se anunciam, qualquer gaveta é o olho do furacão. Por vezes vou até a rua e fico dando voltas em torno do prédio. A calma é sentir o chão sob os pés, a dor é não haver ninguém que possa compreender minha deriva circular. Estou sozinha e isso me enlouquece e me enche de desconhecido ânimo.  Meu corpo se estende e encolhe sem que eu queira, tem vida própria. Caminha com as pernas mínimas, repousa com imensos braços e um peito denso, repleto de palpitações. E meus olhos se estreitam diante da luz, enquanto minha boca dilata de sede e de tanto silêncio retido. No tempo de Mateus, meu corpo era moldado para ser o avesso do dele e nos encaixávamos durante o dia todo. Mateus em silêncio e eu solta numa maré de palavras, depois Mateus de pé e eu ao rés do chão. Ele quieto e eu eufórica, ele cuidando da terra e eu trocando a lâmpada, ele querendo a salvação e eu me perdendo a cada instante. Todos nossos contraditórios eram os passos de uma dança. Meu pé na direção das pernas dele e ele dando um passo atrás. Agora Mateus está longe do meu conhecimento e eu mais próxima que nunca da minha própria atenção. O próximo passo é aprender a inventá-lo só.   

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Em Teu nome


Em Tua direção lançarei meus braços, ávidos pelo antigo susto. Que Teus dedos toquem meus olhos e atendam sua fervura obscena. Que pelo peso do Teu amor, eu possa provar dos sabores do mundo com a pele, a língua e os olhos nus. Que as superfícies de todas as coisas umedeçam meu olhar e, feito amante embriagado, verta todo pranto na direção da vida como um gozo lento e abundante. Que meu coração oscile no ritmo do Teu, e juntos dancemos, corpo a corpo, apartados pela distância da carne e unidos pela graça do absurdo.  Que meu corpo comungue e meu espírito palpite, que minha carne honre a vida em cada um de seus ímpetos e minha alma seja  plena da capacidade de hesitar. Que Em teu nome minha dúvida seja cada vez mais fervorosa, mais apaixonada: a dúvida como uma imensa fé na vida em sua possibilidade de oscilar. E que, pela Tua graça, se possa saber que por Ti não há julgamento a se fazer, restrição a se impor. Que Tu és o nome de todas as possibilidades. Que em Teu nome se descubra que em Teu nome não se pode enumerar mandamentos, nem absolver faltas, nem acumular riquezas. Que Tu és o nome do mistério, que és o próprio indivisível entre todos os corpos, que em Ti há a proximidade inelutável entre a fome e a fartura, o calor e o profundo frio, o imenso vazio e o cheio mais inebriado. Que Tu és a encarnação etérea, a afirmação divergente, o imperativo oscilante. E na Tua direção faço uma prece, não de joelhos, mas com os dois pés bem fincados na terra e o peito aberto para o mundo, e peço que todo aquele que vive o sagrado como uma moralidade possa receber o sopro da contradição e perceba que o desejo não é reto, e  que a curva, a questão, a inquietude nos dignificam. Que a moralidade é a Tua morte e o lugar onde fazes silêncio. E que Tua voz só é ouvida em cada gesto de amor pela existência. O paradoxo repousa em Tua fronte, e a dúvida pende de Tua grandiosa mão, feita Tua insígnia mais poderosa. Tua benção não é a exceção dos dias, mas o próprio tempo condensado em calma. Na noturna solidão de um corpo que não sabe do sentido do existir, mas existe: aí estás. A dor cotidiana de uma vida cansada, mas permeada de deslumbre: este é Teu reino. Que em Teu nome, se descubra que o milagre não é o impossível tornado fato, mas o próprio absurdo da vida em suas numerosas faces. Que em Teu nome se descubra que Teu nome é o nome da Vida e que não há nada mais grandioso que a terra molhada, a ferida, duas peles que se tocam, a chuva que precipita, o engano, a risada na hora equivocada. Que em Teu nome aqueles que vivem  esperando a recompensa pelo bem-viver possam compreender, ainda que por um lampejo, que a vida já é o bem maior. E que morrer não é ir ao teu encontro para ser julgado, mas dissolver-se no sorriso que ostentas através do tempos sem saber do que ris. Que o peso da ideia de não ser julgado nos seja possível, que não nos ofenda o fato que não há ninguém nos medindo, nos avaliando, que estamos sós, entre os corpos, operando na ética de nossos desejos. Que a invenção é nossa magia,  e a incompreensão nosso amante maior. E que, no fim, Tu  não explicarás o sentido de tanta dor, de tanto  susto, por que o  gozo nos assusta mais que a injúria, por que há sempre essa fome revolvendo nossa carne, e nos dirá, olhando em nossos olhos, sempre sorrindo, o enunciado e a solução de todo mistério: viveste.     

quarta-feira, 22 de maio de 2013



Lição das águas

Lentamente diante de ti. Para que suspeites. Minhas feições: ontem abandonadas, hoje cultivadas por ardis, e em breve despidas de qualquer cuidado. Te mostro quem sou. Dessa vez de dentro para fora, eu que sou toda fora, que me estendo pelas superfícies e me camuflo na textura de todos os toques.  Olha que não sustento mais a fala, nem as tramas da memória, nem os nomes próprios, e os retratos votivos de tantas mulheres a quem dedico minhas preces:  te coloco solitário em meu altar. E depois, desfeita de elevações,  me disponho terrena ao teu conhecimento. Toca-me. Repara que sou densa e que tenho uma finitude em cada começo. Que tudo que me excede também finda.  Me ponho diante do teu olho, que é espelho e  lâmina, te dando os meus próprios olhos contra a claridade, te dando minha cegueira, minha incorreção. E depois noto que teus olhos já não me refletem e nem me cortam, mas me dissolvem, me deformam. E brinco, desajeitada, de ter a forma de todas as coisas. Tenho o peso da espuma. Depois sou maciça feito cobre. Afundo. E me ergo. Anêmona, âncora, baú. Sou onde cabe qualquer vida. Depois ocupo o espaço de um templo. E diminuo, peixe amedrontado, conhecendo a morte antes de entender o que é nascer. E reparo que teus olhos me dão a existência sem um rosto, e eu me dou todas as faces, grito no escuro, fico sutil rente ao pânico, sou iluminada por uma ternura. Aqui, nesse escuro onde dou ao teu olho a justa medida do olhar, me faço abundante e informe. Úmida,  lama, tesouro.