Um escuro que escapa pelos dedos. Dentro de mim, esse rumor,
inquietude pelas frestas, o ar suspenso em frágeis fundações. Leio o livro de Hildegarda,
um apócrifo que só eu conheço e tenho em mãos. Ela fala sobre o amor dos homens,
sobre o abraço à terra e essa náusea que nos acompanha diante do obscuro de nós
mesmos. Faz sete dias que me vejo sozinha em casa. Mateus saiu e não mandou
recado qualquer. Não sinto desespero ou revolta, mas experimento uma sensação
de vazio que desconhecia. Mateus já foi o nome dos meus dias e o preenchimento
dos sulcos de cada manhã. Agora o céu é branco, o chão da casa acumula fina
camada de pó, as portas se debatem junto a mim. Tomo banhos demorados, deixo a
pele enrugar, experimento os calores e os gelados de cada superfície com meu
corpo nu. Estendida sobre a mesa de jantar, olhando o teto como quem se deixaria
tragar por uma noite iluminada. Faz sete dias que a casa parece ter uma
vida própria, toda vez que busco organizá-la algum caos se revela em formação.
Tempestades domésticas se anunciam, qualquer gaveta é o olho do furacão. Por
vezes vou até a rua e fico dando voltas em torno do prédio. A calma é sentir o
chão sob os pés, a dor é não haver ninguém que possa compreender minha deriva
circular. Estou sozinha e isso me enlouquece e me enche de desconhecido
ânimo. Meu corpo se estende e encolhe
sem que eu queira, tem vida própria. Caminha com as pernas mínimas, repousa com
imensos braços e um peito denso, repleto de palpitações. E meus olhos se
estreitam diante da luz, enquanto minha boca dilata de sede e de tanto silêncio
retido. No tempo de Mateus, meu corpo era moldado para ser o avesso do dele e
nos encaixávamos durante o dia todo. Mateus em silêncio e eu solta numa maré de
palavras, depois Mateus de pé e eu ao rés do chão. Ele quieto e eu eufórica,
ele cuidando da terra e eu trocando a lâmpada, ele querendo a salvação e eu me perdendo a cada instante. Todos nossos contraditórios eram os passos de uma dança. Meu pé na
direção das pernas dele e ele dando um passo atrás. Agora Mateus está longe do
meu conhecimento e eu mais próxima que nunca da minha própria atenção. O
próximo passo é aprender a inventá-lo só.
segunda-feira, 5 de agosto de 2013
quarta-feira, 24 de julho de 2013
Em Teu nome
Em Tua direção
lançarei meus braços, ávidos pelo antigo susto. Que Teus dedos toquem meus
olhos e atendam sua fervura obscena. Que pelo peso do Teu
amor, eu possa provar dos sabores do mundo com a pele, a língua e os olhos nus. Que as superfícies
de todas as coisas umedeçam meu olhar e, feito amante embriagado, verta todo pranto na direção da vida como um gozo lento e
abundante. Que meu coração oscile no ritmo do Teu, e juntos dancemos, corpo a
corpo, apartados pela distância da carne e unidos pela graça do absurdo. Que meu corpo comungue e meu espírito palpite,
que minha carne honre a vida em cada um de seus ímpetos e minha alma seja plena da capacidade de hesitar. Que Em teu
nome minha dúvida seja cada vez mais fervorosa, mais apaixonada: a dúvida como
uma imensa fé na vida em sua possibilidade de oscilar. E que, pela Tua graça, se possa saber que por
Ti não há julgamento a se fazer, restrição a se impor. Que Tu és o nome de
todas as possibilidades. Que em Teu nome se descubra que em Teu nome não se
pode enumerar mandamentos, nem absolver faltas, nem acumular riquezas. Que Tu
és o nome do mistério, que és o próprio indivisível entre todos os corpos, que
em Ti há a proximidade inelutável entre a fome e a fartura, o calor e
o profundo frio, o imenso vazio e o cheio mais inebriado. Que Tu és a
encarnação etérea, a afirmação divergente, o imperativo oscilante. E na Tua
direção faço uma prece, não de joelhos, mas com os dois pés bem fincados na
terra e o peito aberto para o mundo, e peço que todo aquele que vive o
sagrado como uma moralidade possa receber o sopro da contradição e perceba que o desejo não é reto, e que a curva, a questão, a inquietude nos
dignificam. Que a moralidade é a Tua morte e o lugar onde fazes silêncio. E que
Tua voz só é ouvida em cada gesto de amor pela existência. O paradoxo repousa
em Tua fronte, e a dúvida pende de Tua grandiosa mão, feita Tua insígnia mais poderosa. Tua benção não é a exceção dos dias, mas o próprio tempo
condensado em calma. Na noturna solidão de um corpo que não sabe do sentido do
existir, mas existe: aí estás. A dor cotidiana de uma vida cansada, mas permeada de deslumbre: este é Teu reino. Que em Teu nome, se descubra que o
milagre não é o impossível tornado fato, mas o próprio absurdo da vida em suas
numerosas faces. Que em Teu nome se descubra que Teu nome é o nome da Vida e
que não há nada mais grandioso que a terra molhada, a ferida, duas peles que se
tocam, a chuva que precipita, o engano, a risada na hora equivocada. Que em Teu
nome aqueles que vivem esperando a
recompensa pelo bem-viver possam compreender, ainda que por um lampejo, que a
vida já é o bem maior. E que morrer não é ir ao teu encontro para ser julgado,
mas dissolver-se no sorriso que ostentas através do tempos sem saber do que
ris. Que o peso da ideia de não ser julgado nos seja possível, que não nos
ofenda o fato que não há ninguém nos medindo, nos avaliando, que estamos sós,
entre os corpos, operando na ética de nossos desejos. Que a invenção é nossa
magia, e a incompreensão nosso amante
maior. E que, no fim, Tu não explicarás
o sentido de tanta dor, de tanto susto, por que o gozo nos assusta mais que a injúria, por que
há sempre essa fome revolvendo nossa carne, e nos dirá, olhando em nossos
olhos, sempre sorrindo, o enunciado e a solução de todo mistério: viveste.
quarta-feira, 22 de maio de 2013
Lição das águas
Lentamente diante de ti. Para que
suspeites. Minhas feições: ontem abandonadas, hoje cultivadas por ardis, e em
breve despidas de qualquer cuidado. Te mostro quem sou. Dessa vez de dentro
para fora, eu que sou toda fora, que me estendo pelas superfícies e me camuflo
na textura de todos os toques. Olha que não
sustento mais a fala, nem as tramas da memória, nem os nomes próprios, e os
retratos votivos de tantas mulheres a quem dedico minhas preces: te coloco solitário em meu altar. E depois, desfeita
de elevações, me disponho terrena ao teu
conhecimento. Toca-me. Repara que sou densa e que tenho uma finitude em cada
começo. Que tudo que me excede também finda. Me ponho diante do teu olho, que é espelho e lâmina, te dando os meus próprios olhos contra
a claridade, te dando minha cegueira, minha incorreção. E depois noto que teus
olhos já não me refletem e nem me cortam, mas me dissolvem, me deformam. E
brinco, desajeitada, de ter a forma de todas as coisas. Tenho o peso da espuma.
Depois sou maciça feito cobre. Afundo. E me ergo. Anêmona, âncora, baú. Sou
onde cabe qualquer vida. Depois ocupo o espaço de um templo. E diminuo, peixe amedrontado,
conhecendo a morte antes de entender o que é nascer. E reparo que teus olhos me
dão a existência sem um rosto, e eu me dou todas as faces, grito no escuro,
fico sutil rente ao pânico, sou iluminada por uma ternura. Aqui, nesse escuro
onde dou ao teu olho a justa medida do olhar, me faço abundante e informe.
Úmida, lama, tesouro.
terça-feira, 7 de maio de 2013
quinta-feira, 25 de abril de 2013
Rosto coberto de avesso
Uma névoa quente
Num impulso, cortei minha franja
com uma tesoura de cozinha. Vejo que fica torta e muito curta e me dá vontade
de rir. Lembro-me da transgressão infantil de trancar-me no banheiro com uma tesoura
e cortar livremente meu cabelo sem nenhum
critério, para o susto e apreensão da minha mãe. Uma pequena experiência
libertadora de quem assume o corpo como seu, de quem faz um pequeno uso secreto
e indevido de si. Semanas seguiam com a minha mãe passando gel para tentar
domar a franja feia, usando grampos rentes à minha testa e me lembrando
diariamente do gesto inconsequente. Aos vinte e três anos, sem precisar me
esconder para deixar minha franja curta e torta, com o chuveiro quente ligado
vejo minha imagem ficando cada vez mais embaçada no espelho e passo algum tempo
diante da figura enevoada, encarando camadas do meu rosto antigo-atual se
tornando borrão.
Banheiro de um hotel no Canadá.
Ligo o chuveiro para entrar no banho e vejo, novamente, minha figura
tornando-se mancha. Com a franja já reta e um pouco maior, mas ainda atingida
pela fragilidade assumida pelo meu reflexo, sinto desejo de registrar o
processo do meu corpo se encarando num espelho, primeiro nítido no espelho
frio, depois esfumaçado pela superfície umedecida. Quem fotografa é a minha
mãe, essa que agora me ajuda nesses pequenos manejos incomuns
de mim mesma. Ela se posiciona ao meu lado, desligamos e religamos o
chuveiro quente e ela fotografa. O
resultado são imagens monótonas, que quase não diferem. A passagem do tempo só
é notada por pequenas alterações da minha postura e pelo espelho que, depois de
muitos quadros, se torna completamente embaçado. Um rosto coberto de névoa quente,
enquanto o corpo aguarda, permanece, do lado de cá.
Um rosto coberto de avesso
Passeando pela lojinha de um
museu, encontro um livro de anatomia humana. Não resisto às imagens estranhas,
belas, cortantes. Cresci em torno de livros como esses e mesmo de coisas como
estas, já que – ainda criança – costumava ajudar minha mãe em sessões de
macroscopia que consistiam em transcrever frases ditadas por ela enquanto ela
fatiava órgãos a serem analisados. Ela provavelmente estava apenas querendo me
ensinar o valor e a importância do trabalho. Mas o ato de escrever enquanto
minha mãe manuseava vísceras deve ter me atingido de alguma maneira que não
entendo, pois até hoje me interessa fazer uso dessas imagens de anatomia num
contexto ficcional, inventivo. As imagens que mais me chamam a atenção no livro
são parte de uma sequência de homens que abrem a própria barriga com as mãos
para mostrar o interior. De algum modo, sinto que repito esse gesto. Quando
produzo, sei que quero mostrar algum avesso, alguma entranha. Mas sinto que meu
gesto difere, já que não é a entranha como um fim que me interessa, mas a
invenção que posso fazer dela, a máscara que posso criar com essa matéria. A
minha entranha não é uma verdade, mas uma criação. Esse é meu rosto coberto de
avesso.
Cortes
Releio os textos que produzi nos
primeiros meses de 2012, parte da disciplina de Processos Artísticos
Contemporâneos. A pergunta é: como
torna-los um trabalho visual, uma proposição plástica? Os próprios textos
contêm muitas chaves e pistas para essa elaboração. Volto-me, uma vez mais,
para o papel. Imprimo os textos e separo trechos que me parecem, por alguma
razão, mais indispensáveis que outros.
Num processo lento e difícil, colo – frase a frase- num caderno
vermelho. Poderia escrever a mão, sinto que seria mais fácil e rápido – mas uso
dessa técnica de sequestradores e de admiradores secretos, de criar uma
caligrafia com letras já formadas. Ainda
à maneira de sequestradores e amantes platônicos sinto que há, nesse gesto, uma
emoção que se revela numa tentativa torta de impessoalidade, de anonimato. A
paixão revelada no tremular de uma mão que se implica, mais do nunca, no próprio
gesto com o qual pretendia se anular. Mostrar-me através de uma tentativa de
esconderijo, essa jogada que tantas vezes recorre.
Insisto
São gestos que me desafiam.
Recortar colar recortar colar, não sabia que era tão difícil manusear a cola.
Depois passo madrugadas desenhando pontos e outra cobrindo o branco papel de
tinta preta. Encontro a forma desse trabalho através de procedimentos que me
fazem querer desistir deles próprios, de exaustivos que são. Mas insisto. Quero
descobrir uma paciência que não tenho, quero inventar uma habilidade que não
possuo. Quero ser mais forte que eu.
Astronomias
Injustificável é essa minha
atração por objetos de estudar o cosmos. Vou ao sebo e compro livros de
astronomia em língua estranha. Passeio em planetários. Penso em comprar um
telescópio e aponta-lo ao teto concreto do meu quarto. Existe algo nesse
projeto insano de compreender os astros que me encanta. Um esforço em torno do imensurável.
Uma técnica para não cegar, um modo de encarar espectros de astros, que dizem
que nem estão mais lá. É o rigor diante do infinito que me cativa. São as tentativa sinceras e precárias que me
encantam. Entender a mim mesma, entender o que faço, apontar o astrolábio na
minha direção, parece ser o mesmo indispensável e dispendioso esforço.
Gelo liso
Um pequeno aforismo de Nietzsche
que , pra mim, fala do processo de criar. Criação, esse passeio num terreno de
quedas, onde só se pode estar quem sabe criar o imprevisível do corpo, a dança desvairada
dos afetos.
02.08.2012
quinta-feira, 18 de abril de 2013
A
exposição de Eduardo Berliner, presente na Sala A Contemporânea do CCBB-RJ no período de 26 de fevereiro a 31 de
março, é composta de pinturas sobre tela, pinturas e desenhos sobre papel,
objetos escultóricos, vídeos e fotografia. Em suas figurações, o artista apresenta
um mundo sem contornos definidos, feito de súbitos lampejos e iminentes
dissoluções. Utiliza-se da tinta borrando
limites, transbordando margens. Seus traços invadem, abruptamente, campos de
cor. Com uma paleta que tende para tons escuros, constrói céus sombrios,
cenários úmidos e focos de fogo. Quando o calor se mostra em cor é no vermelho
do sangue ou das flores que surgem sobre
a estranha aridez que as fecunda. A
presença da figura humana recorre, envolta de paisagem bucólica ou na
arquitetura da cidade. Os atritos entre
corpo e mundo são feitos de perfurações, capturas, dilaceramentos, pancadas.
Pinceladas furiosas constroem a pele como uma massa de ocres, compondo corpos
desmembrados e membros sem corpos, que anunciam presenças irreveladas. Nos
contatos entre corpos, a violência não é óbvia, mostra-se
aguda e pungente. Há também ternuras que persistem, sujeitos que testemunham a
fragilidade de outros e, assim, também a própria finitude.
As
figurações de Berliner apontam a uma intimidade estrangeira com o mundo. Do
banal emerge o inesperado. Do conhecido, o susto. Nesse sentido, o artista
persegue a gramática dos sonhos: o mais alheio produzido pelo profundamente pessoal. O artista introduz nas suas imagens esse teor
indesvendável do onírico, aquilo que, tendo parentesco com o conhecido, está
fora da simbolização, estranho à linguagem e suas normativas. A arquitetura da cidade,
promovedora da inação, do tédio e da
preguiça, pode ser o cenário da angústia e do fascínio. O estranho, em
Berliner, faz corte com qualquer homogeneidade apaziguada. O artista coloca em
questão o desenho de observação, apresentando-o como uma experiência de
nascimento: o que nasce sempre tem a potência de perturbar o mundo. O
imaginário da infância, que recorre em suas obras, pode ser tomado como um
duplo do seu próprio gesto: a infância, assim como a obra, abre um rasgo que
faz vacilar as estruturas das instituições. A verdade da produção poética e a
verdade da infância são alheias às
medidas do saber constituído, são potentes de um modo diverso ao do poder como
se conhece. Ambas chegam ao mundo com exigências de hospitalidade inconformadas
com as medidas estabelecidas. Eduardo
Berliner trabalha a superfície como enigma, figura o reconhecível que produz
mistério, peles que se dilaceram em aparatos protéticos e a infância como campo
de tensões em que o surgimento do diverso acolhe o mundo e seus nascimentos
súbitos.
* uma versão editada desse texto foi publicada na revista Dasartes n. 27
** imagens: reprodução de obras de Eduardo Berliner
segunda-feira, 25 de março de 2013
Prestou
devoção aos detalhes, abriu frestas de um embrulho, manteve as portas inertes.
Todo dia essa luta, a permanência dos corpos sólidos e o temporal incoerente que molha as plantas já regadas, o chão dissimulado, os furores de dentro. Dentro, uma
batida forte. Marcação de um compasso antigo no seu peito e uma voz ao longe que diz: é
preciso acreditar na diferença, a fidelidade é uma muralha que nos protege de querer compreender qualquer coisa por inteiro. Ela se sentava para dançar, só os dedos
correndo pelas superfícies. Experimentava texturas, às vezes gritava. Seus
sustos eram sem razão. Ela inteira dentro de uma atmosfera forjada: a luz do dia não
dizia nada sobre seu corpo, quem era, ao sol do meio dia? E depois, às três? Invejou
os seres guiados pela luminosidade, o tropismo das plantas, o delírio mortal
das mariposas. Que a luz fosse esse sentido, essa sedução. Mas fechava-se em um
escuro sem saída. O único caminho era mesmo a dança das suas mãos. Com seus
dedos urdia uma mortalha. Linho para revestir a morte ou manta de acolher nascidos?
Melhor era lavar a casa, esfregar as
paredes, os azulejos, o chão antigo. Investigar os cantos, tentar a paz com os
animais. Mas o dia passava e sua febre
era a direção de seus impulsos. Machucava-se contra as superfícies, como quem
de repente deixa de caber e depois tornava a conviver com as medidas que conhecia,
buscando o cálculo exato que revelasse a anatomia do acidente, do acaso bruto tornado lenta vida.
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