quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011





















a constância geométrica dos corpos instáveis

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Arte Bruta

Salivo de desejo, queria um mosteiro Beneditino para testar minha alma rala
Queria me embrenhar na seca, tomar pinga, distender meus braços latinos no pulso de um atabaque
Dançar de colant em Pernambuco
Colar um Bosch na parede com dupla face
Não evito gargalhada em meio ao pânico
Coberta de uma pele crua e emplumada
Arrisco o vazio da mente em meditações dolorosas
Como que para me salvar do mais simples de mim
Sincretismos fervorosos, lacuna apaixonada
Em nome do Sagrado Nada Entender, procuro o esquecimento, os dias letivos e devidamente ocupados. Desempenho a nudez solitária, experimento dormências e silenciosas núpcias. Me dissolvo de amor, tropeço na barra das calças, soluço há mais de uma semana. Canso-me da sedução pelo enigma, do leviano jogo de ausências, olhares cifrados, palavras gentis. Então fico perversa, altiva, etérea, louca de vontade de ir pra casa chorar um pranto quente, dissertando sobre todas as minhas misérias, entregando-me ao grande cansaço. Vem, amor antigo, tuas faces são metades de romã, na transparência do véu, teu pescoço é como a torre de Davi, construída com parapeitos, da qual pendem mil escuros e armaduras de todos os heróis, teu corpo é tormenta, mar aberto, ventania. Ou então deixa pra lá.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Unhas curtas, que já nem te marcam mais. Um dia inteiro, sala e quarto, no exercício renovado de uma espera antiga. Agrado-me até me machucar, devoro o que aparece, me esvazio em qualquer cheia. Depois tento os vestidos floridos, mutilações, caminhada em prece, amar a Deus através das quedas.

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Tento o desvio, a cachaça, o sublime das linhas certas e tortas. Enceno a Sagrada Vagabunda, depois a ressentida imaculada, esqueço tudo, me coço até sangrar. Recebo tua mão sobre meu ombro como uma improvável oferta, arrependimento fundo, sonho com hieróglifos.

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Aglomero omissões com pressentimentos, descasco enigmas, me explicito e não.

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O risco como um norte.

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Nenhum orgulho aos meus pais, nenhum hábito educado, nenhum orgasmo solitário.

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Tomo banho de chuva, comungo, levo choques.

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Luto pela causa operária

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Tento a dissimulação. Invejo a bailarina contundida. Sofro de fomes matinais

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Arrumo a minha farmacinha. Experiências telecinéticas.

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Um tédio que me santifica. Pontas duplas.

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Arqueologia sem perfuração.

sábado, 29 de janeiro de 2011




















fazer para saber que pode ser desfeito

sábado, 8 de janeiro de 2011

Liturgia

Maré, enchente, sagrado movimento. Tudo que é vivo é dança, densidade, tempo, pequenos enredados de equilíbrio e queda. Dizer: sim. Eu sou o mundo em movimento, em minhas domésticas translações, natureza transmutada, regenerada pelo peso. Gratidão pela impermanência, surgimento súbito. Eu te reconheço, encontro breve, pungência frágil, e me encontro ao te soltar. Reverência a tudo que há de agramatical, sabedoria sem léxico, é a ti que recorro no escuro da minha noite . Peço a benção dos Deuses analfabetos. Metafísica orgânica, nenhum motivo que não os musculares. Comer pela minha fome, amar pelo meu desejo de amor, dormir pelo meu cansaço. Nenhuma estrutura maior que a sede, das verdades, só as famintas. Disponibilidade de sentir, a generosidade do instante. Acendo velas, queimo mirra, faço colares de contas, conchas e flores, construo altares efêmeros, ídolos de murta, jejuo, busco o grande silêncio, pratico retiros e êxtases solitários sobre almofadas. Urgência, apetite e cãibra como forma de oração.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Teu corpo

Para Marina Abramovic


Se alguma coisa me repugnava, eu a transformava em objeto de estudo, forçando-me a retirar dela algum motivo de alegria. Em face de uma ocorrência imprevista ou quase desesperada, de uma emboscada ou de uma tempestade no mar, contanto que todas providências relativas aos outros fossem tomadas, aplicava-me a festejar o acaso e a aproveitar o que ele me trazia de inesperado, e a emboscada assim como a tempestade integravam-se, sem qualquer choque, nos meus planos ou nos meus sonhos. Mesmo no meio do meu pior desastre, vi o momento em que o esgotamento lhe subtraiu parte do seu horror quando o tornei meu, concordando em aceitá-lo. Se algum dia tiver de submeter-me à tortura – e a doença sem dúvida se encarregará disso -, não estou certo de manter por longo tempo a impassibilidade de um Trásea, mas terei pelo menos o recurso de me resignar a meus próprios gritos. Foi dessa maneira, com uma mistura de prudência e audácia, de submissão e revolta cuidadosamente calculadas, de extrema exigência e prudentes concessões, que acabei finalmente por aceitar-me a mim mesmo. (Marguerite Yourcenar)



Marina, teu corpo é Teresa, Anadyomene, Verticordia. É Judith, Lucrécia, Salomé. Estado bruto, ausência de linguagem, negação. Permanência; anulação e ânsia. Sem rosto, enfrenta espelhos e vulcões. Teu enigma: desprender-se no controle, controlar-se livremente. Tuas quedas premeditadas, quase me tocas. Teu corpo cansado, teu corpo corajoso. Eu pensei que tu ias chorar. Teus olhos me comovem. Encanta-me a violência que inventas. Aconchego-me no teu corpo em fuga, teu corpo mártir, leviano. Teu corpo devoto das vertigens. Teu ar te escapa pela boca, o que poderia ser um beijo é uma demorada morte. Tua boca faminta. Matas e morres mil vezes. Tua boca não mede, não narra. Tua boca faminta. Pela boca, encontras um martírio sem Deus, uma penitência íntima, um êxtase precário. Pela boca aprendes o desmedido das coisas, mastigas o incomensurável, te livras de toda compostura. É pela boca também que te ofereces silenciosa. Três meses de silêncio diante de mil olhos que te apalpam. Silenciosa, és acolhimento do dado, afirmação do presente. Tua boca silenciosa experimenta o insuportável, se expõe à exaustão, grito sem timbre de um assombro sem causas. Marina, teu silêncio não é docilidade, é arma. Combates a dor compactuando com a dor, desejando a dor, amor pela mácula, desejo de incontenção. Te esquivas do grito no interior do grito, te salvas do crime através do próprio crime. Tuas mãos limpam, machucam, tocam, salvam. Teus ossos flutuam, atravessados de outra gravidade. Duplicados, tu e teu lado de fora respiram juntos. Teu peito é laboriosa doação, erotismo com o todo, prazer junto à terra. Afronta, corre riscos, abre espaços. Virgin warrior heart, víscera intrusa, Sagrado Coração. Tuas pernas, penitência peregrina, tua dor é eremita. Pietá resignada, viajante, solitária, a espera da iluminação. Caminha para expurgar o mal. Caminha para desencontrar, para sobreviver. Trocar de pele. Ser tocada, ser flechada, ser pega pelo ponto que nunca cicatriza. Tua pele disponível, tua pele que queima, tua pele que cede, tua pele, tua profundeza.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Opacidade, depois. Profusão, leito transbordante e calado. Eu invento todos os trajetos, me enrolo nuns panos finos, engordo e emagreço, durmo mal e depois durmo à toa. Eu forço sentidos, corpos um dia amados, tróias incendiadas, tua boca que não toco, minha inação, o medo que desmorono e reconstruo. Enlouquecemos em noites quentes frias de nós dois em qualquer multidão, meu panos brancos, a prisão que estrago, insurreição. Qualquer angústia, uma floresta de peles intocadas e dias em que não virás. Eu embaralho todos os livros, ontologia revirada, latim, alemão, sermões de Vieira, não estás. Eu te espero, e eu espero o quê? Eu praticando a terra, me sujando de mim, o indizível como norma, o mistério espaço. E depois me calo e me estranho e fico pequena menor duvidando de todos os prazeres, toda alegria que um dia foi quente e indomável como um sol. Eu queria te mostrar como é violento você existir. Eu queria ser tua terra, fértil infértil, deserto mangue geleira, e criaremos cidades nações impérios absolutos e já destruídos de nós dois, e dormiremos no silêncio dos espaços devastados. A beleza de qualquer desencontro, todos corpos um corpo, os fogos ardendo arenas de lutas e leitos de amor, o fogo. A tua dor será meu nome? Onde não estou, será meu nome? Tua devoção ao inviolável, ao intocado, eu me curvo. Invento a fuga, corro, deixo quebrar tudo o que construi, eu me atravesso, eu me desvio.